Enterrados no Jardim

Um acepipe nas barricadas. Outra conversa com David Teles Pereira

4 h 36 min · 6 de jun de 2026
Portada del episodio Um acepipe nas barricadas. Outra conversa com David Teles Pereira

Descripción

Se as perdêssemos de vista por umas horas, não saberíamos reencontrar as nossas vidas pelo cheiro, nem pelo gemido que fazem, nem daríamos com esses corpos tão abatidos que só de um certo ângulo, a poucos palmos do espelho, nos parece que sim, serão os nossos, porque repetem vagamente os mesmos gestos ou expressões. Mas mesmo nisso parece instalar-se um certo desfasamento, algum atraso, e são poucos aqueles que nalgum dos seus rastros se mostram firmemente fiéis à sua juventude. Reserva-se esse elogio hoje a tão poucos: “Pouco antes de morrer, o que ele escrevia, o modo como continuava a viver, conservavam a virulência, a agressividade e a independência dos seus 25 anos.” Em certa medida a poesia era uma resistência da juventude pela vida fora, o doloroso alarme mantido na relação com o mundo, a impossibilidade de se saciar com aquele pão com que os demais empurram seja o que for. Chega uma altura em que o abandono parece a nossa melhor arma. Quem ama não faz contas, mas hoje tudo se guia por esses sinais: soma: multiplicação… “O mundo moderno”, escrevia Péguy, “não é universalmente prostituível por luxúria. É totalmente incapaz disso. Ele é universalmente prostituível porque é universalmente intercambiável”. Queremos dizer-nos alguma coisa, mas até as nossas palavras parece que tilintam mais do que soam, estão cheias da frieza do cálculo, não passam de fracções. Ora, o dinheiro não exprime outra coisa senão a desolação do infinitamente reconvertível. Assim, cada palavra vale tanto ou tão pouco como outra qualquer. “Quando o dinheiro vale alguma coisa, a palavra não vale nada. Quando a palavra vale, o dinheiro não vale nada” (comité invisível). Por estes dias, olhando à volta, até isso a que chamam luta já pouco se distingue do conformismo, da resignação. “Quando a História for escrita como deve ser, os homens ficarão admirados do comedimento e da grande paciência das massas e não da sua ferocidade”, assevera o autor de Os Jacobinos Negros. Chega-se a uma altura em que se percebe que o tempo está decididamente contra nós, mas em vez de isso reverter a favor dessa doença mortal, dessa razão desesperada, todos ainda aguardam que a sua situação se resolva. E vamos sair mais algumas vezes e reivindicar esses salários de fome, gratos pela nossa miséria, dando por nós tão longe de qualquer ambição existencial, a qual teria de passar por “repelir para o mais longe possível as relações hostis urdidas na esfera do dinheiro, da contabilidade, da medida, da avaliação”. Os do comité invisível adiantam que, por esta altura, a economia já não é somente aquilo de que devemos sair para deixarmos de ser esfomeados, mas é aquilo de que é necessário sair para viver, para simplesmente estar presente no mundo. O mais grave, assim, é que a cada dia que passa se colhem cada vez mais provas da impossibilidade de dois ou mais se encontrarem num lugar e num tempo, pois mesmo os nossos ímpetos aventurosos estão distribuídos por frequências de onda que só por um acaso milagroso se combinam e enredam. “Após uma ausência de que ninguém teve a culpa/ ficamos acanhados um ao pé do outro/ e as nossas palavras parecem mais recentes do que nós,/ como se tivéssemos de voltar ao momento em que nos conhecemos/ e recuperar-nos até ao presente”, lê-se nuns versos de Linda Pastan, num poema em que ela reconhece como o maior perigo que enfrentam os amantes é “toda essa ressaca/ da vida quotidiana, oculta mas perigosa,/ que tão depressa nos puxa a ambos para o fundo”. De resto, quem ainda se sujeita aos destratos de andar sem rumo, aprender com dificuldade os idiomas do acaso pela hipótese de provar o néctar da beira da estrada, dos fins de mundo, dessas zonas limite? “A economia, é este o seu princípio, faz-nos correr como ratos, para que não estejamos nunca lá, a descobrir o segredo da sua usurpação: a presença./ Sair da economia é fazer emergir o plano da realidade que ela esconde. A troca mercantil e tudo o que ela comporta de dura negociação, de desconfiança, de engano”… Aquele brilhante judeu que se matou por receio de ser entregue à Gestapo, quando tentava escapar pelos Pirenéus, notou que articular o passado historicamente não significa conhecê-lo “como ele de facto foi”, mas apoderar-se de uma recordação, tal como ela relampeja no instante de perigo. O pior do nosso tempo é que os perigos se multiplicam, e se tantos fazem questão de os registar, diagnosticar, se passamos boa parte do nosso tempo comovidos com a nossa infindável capacidade de sofrermos com as dores mais distantes, depois ninguém faz nada em relação àquilo que está mais próximo. Falta aquela capacidade própria dos poetas que, no entender de Cortázar, se reconheciam menos pelo que os trancava em si mesmos e mais naquilo que lhes era próximo, que os fazia sentir implicados no que tinham ao seu redor. “Falo da responsabilidade do poeta, esse irresponsável por direito próprio, esse anarquista enamorado de uma ordem solar e nunca da nova ordem ou do slogan que faz marchar ao mesmo passo cinco ou setecentos milhões de homens numa paródia de ordem. Falo de algo que desagradará profundamente aos comissários, aos jovens turcos ou aos guardas vermelhos; falo de uma condição que ninguém descreveu melhor do que John Keats numa carta a que, há muitos anos, chamei a carta do camaleão e que mereceria ser tão célebre como a ‘Lettre du voyant’. O seu prelúdio deixa-se perceber numa frase escrita um ano antes e quase de passagem. Keats diz ao seu amigo Bayley que nunca esperou outra felicidade além da do puro presente e acrescenta, como quem não quer a coisa: ‘Se um pardal pousa junto da minha janela, tomo parte na sua existência e debico no chão…’” Por estas bandas, ninguém merece um reflexo na carne dos outros, um eco seu que floresça a tempo de lhe dar algum sinal, e tudo o que de mais verdadeiro e sensível acontece, perde-se como se não tivesse acontecido. Vamos fazendo a crónica de “uma pequena nação de pequenos assassinos caseiros” (Luiz Pacheco), por incapacidade de nos sujeitarmos às exigências da admiração, que implicam desde logo deixar de lado o cálculo. É a típica condenação a que nos sujeita um tempo medíocre. Envelheces tão cedo, por essa impossibilidade de escolher, por nos sairmos sempre pior num registo impetuoso, quando toda a eloquência é sentida como uma ofensa. Alheios ao seu próprio sonho, decalca o Pacheco no António Sérgio, para falar de nós, seres caídos nesta espiral vagabunda, num país aos bocados, que se reconhece por este cheiro a despegado, que se mantém colado apenas para favorecer algum esquema. E o Pacheco foi vendo, com o acumular dos anos, este desamparo de “tantos de nós ludibriando os próprios sonhos da sua juventude, anquilosando ambições mais do que legítimas, minguando-se, limitando-se (…) sem horizontes já para inventar algo melhor. Pendurados na fezada de um futuro, que já não vai ser para eles, isto é, que já os apanha disformes: gordos, apatetados, com cirroses… envelhecidos prematuramente por dentro, e muito sono nas almas, leia-se consciências.” E talvez porque não há luta em comum que nos arranque desse casulo, dessa clausura, desse castigo de se ver a definhar para fazer carreira como “eu”, e nos devolva uns aos outros. “Há qualquer coisa de prostituível em todo o lado em que domina o nosso ‘valor social’, em todo o lado onde se troca uma parte de nós pela mínima retribuição, seja ela, financeira, simbólica, política, afectiva ou sexual” (comité invisível). E, neste ponto, vale a pena retomar a correspondência de Keats, que, numa carta a Richard Woodhouse, trocou o pardal pelo camaleão: “Quanto ao carácter poético em si... não tem um eu; é tudo e é nada: não tem carácter; deleita-se tanto com a luz como com a sombra; vive naquilo de que gosta, seja horrível ou belo, excelso ou humilde, rico ou pobre, mesquinho ou elevado. Sente tanto prazer em conceber um Iago como uma Imogena. Aquilo que choca o filósofo virtuoso deleita o poeta-camaleão... Um poeta é a coisa menos poética que existe; como não tem identidade, tende continuamente a encarnar-se noutros corpos... O poeta não possui nenhum atributo invariável; é, certamente, a menos poética de todas as criaturas de Deus.” Neste episódio, o David voltou para nos dar uma hipótese de tirarmos a barriga de misérias e saltarmos da greve geral para umas luxuriantes patuscadas, conseguidas na base de todo um arsenal de poções e fórmulas científicas aplicadas à exploração gastronómica, sem abdicar, no entanto, daquela elementar dose de porrada e humilhações sem as quais nunca se faz nada, além dos gerais iscos que convencem os lorpas de que têm muita sorte em ter um chulo a ocupar-se deles. Vamos também dar um passeio pela feira do livro de Lisboa pela mão do Pacheco e ouvir as últimas quanto a editores a quem, por maior que seja a crise, nunca há-de faltar um tremendo jeito para o negócio.

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Um acepipe nas barricadas. Outra conversa com David Teles Pereira

Se as perdêssemos de vista por umas horas, não saberíamos reencontrar as nossas vidas pelo cheiro, nem pelo gemido que fazem, nem daríamos com esses corpos tão abatidos que só de um certo ângulo, a poucos palmos do espelho, nos parece que sim, serão os nossos, porque repetem vagamente os mesmos gestos ou expressões. Mas mesmo nisso parece instalar-se um certo desfasamento, algum atraso, e são poucos aqueles que nalgum dos seus rastros se mostram firmemente fiéis à sua juventude. Reserva-se esse elogio hoje a tão poucos: “Pouco antes de morrer, o que ele escrevia, o modo como continuava a viver, conservavam a virulência, a agressividade e a independência dos seus 25 anos.” Em certa medida a poesia era uma resistência da juventude pela vida fora, o doloroso alarme mantido na relação com o mundo, a impossibilidade de se saciar com aquele pão com que os demais empurram seja o que for. Chega uma altura em que o abandono parece a nossa melhor arma. Quem ama não faz contas, mas hoje tudo se guia por esses sinais: soma: multiplicação… “O mundo moderno”, escrevia Péguy, “não é universalmente prostituível por luxúria. É totalmente incapaz disso. Ele é universalmente prostituível porque é universalmente intercambiável”. Queremos dizer-nos alguma coisa, mas até as nossas palavras parece que tilintam mais do que soam, estão cheias da frieza do cálculo, não passam de fracções. Ora, o dinheiro não exprime outra coisa senão a desolação do infinitamente reconvertível. Assim, cada palavra vale tanto ou tão pouco como outra qualquer. “Quando o dinheiro vale alguma coisa, a palavra não vale nada. Quando a palavra vale, o dinheiro não vale nada” (comité invisível). Por estes dias, olhando à volta, até isso a que chamam luta já pouco se distingue do conformismo, da resignação. “Quando a História for escrita como deve ser, os homens ficarão admirados do comedimento e da grande paciência das massas e não da sua ferocidade”, assevera o autor de Os Jacobinos Negros. Chega-se a uma altura em que se percebe que o tempo está decididamente contra nós, mas em vez de isso reverter a favor dessa doença mortal, dessa razão desesperada, todos ainda aguardam que a sua situação se resolva. E vamos sair mais algumas vezes e reivindicar esses salários de fome, gratos pela nossa miséria, dando por nós tão longe de qualquer ambição existencial, a qual teria de passar por “repelir para o mais longe possível as relações hostis urdidas na esfera do dinheiro, da contabilidade, da medida, da avaliação”. Os do comité invisível adiantam que, por esta altura, a economia já não é somente aquilo de que devemos sair para deixarmos de ser esfomeados, mas é aquilo de que é necessário sair para viver, para simplesmente estar presente no mundo. O mais grave, assim, é que a cada dia que passa se colhem cada vez mais provas da impossibilidade de dois ou mais se encontrarem num lugar e num tempo, pois mesmo os nossos ímpetos aventurosos estão distribuídos por frequências de onda que só por um acaso milagroso se combinam e enredam. “Após uma ausência de que ninguém teve a culpa/ ficamos acanhados um ao pé do outro/ e as nossas palavras parecem mais recentes do que nós,/ como se tivéssemos de voltar ao momento em que nos conhecemos/ e recuperar-nos até ao presente”, lê-se nuns versos de Linda Pastan, num poema em que ela reconhece como o maior perigo que enfrentam os amantes é “toda essa ressaca/ da vida quotidiana, oculta mas perigosa,/ que tão depressa nos puxa a ambos para o fundo”. De resto, quem ainda se sujeita aos destratos de andar sem rumo, aprender com dificuldade os idiomas do acaso pela hipótese de provar o néctar da beira da estrada, dos fins de mundo, dessas zonas limite? “A economia, é este o seu princípio, faz-nos correr como ratos, para que não estejamos nunca lá, a descobrir o segredo da sua usurpação: a presença./ Sair da economia é fazer emergir o plano da realidade que ela esconde. A troca mercantil e tudo o que ela comporta de dura negociação, de desconfiança, de engano”… Aquele brilhante judeu que se matou por receio de ser entregue à Gestapo, quando tentava escapar pelos Pirenéus, notou que articular o passado historicamente não significa conhecê-lo “como ele de facto foi”, mas apoderar-se de uma recordação, tal como ela relampeja no instante de perigo. O pior do nosso tempo é que os perigos se multiplicam, e se tantos fazem questão de os registar, diagnosticar, se passamos boa parte do nosso tempo comovidos com a nossa infindável capacidade de sofrermos com as dores mais distantes, depois ninguém faz nada em relação àquilo que está mais próximo. Falta aquela capacidade própria dos poetas que, no entender de Cortázar, se reconheciam menos pelo que os trancava em si mesmos e mais naquilo que lhes era próximo, que os fazia sentir implicados no que tinham ao seu redor. “Falo da responsabilidade do poeta, esse irresponsável por direito próprio, esse anarquista enamorado de uma ordem solar e nunca da nova ordem ou do slogan que faz marchar ao mesmo passo cinco ou setecentos milhões de homens numa paródia de ordem. Falo de algo que desagradará profundamente aos comissários, aos jovens turcos ou aos guardas vermelhos; falo de uma condição que ninguém descreveu melhor do que John Keats numa carta a que, há muitos anos, chamei a carta do camaleão e que mereceria ser tão célebre como a ‘Lettre du voyant’. O seu prelúdio deixa-se perceber numa frase escrita um ano antes e quase de passagem. Keats diz ao seu amigo Bayley que nunca esperou outra felicidade além da do puro presente e acrescenta, como quem não quer a coisa: ‘Se um pardal pousa junto da minha janela, tomo parte na sua existência e debico no chão…’” Por estas bandas, ninguém merece um reflexo na carne dos outros, um eco seu que floresça a tempo de lhe dar algum sinal, e tudo o que de mais verdadeiro e sensível acontece, perde-se como se não tivesse acontecido. Vamos fazendo a crónica de “uma pequena nação de pequenos assassinos caseiros” (Luiz Pacheco), por incapacidade de nos sujeitarmos às exigências da admiração, que implicam desde logo deixar de lado o cálculo. É a típica condenação a que nos sujeita um tempo medíocre. Envelheces tão cedo, por essa impossibilidade de escolher, por nos sairmos sempre pior num registo impetuoso, quando toda a eloquência é sentida como uma ofensa. Alheios ao seu próprio sonho, decalca o Pacheco no António Sérgio, para falar de nós, seres caídos nesta espiral vagabunda, num país aos bocados, que se reconhece por este cheiro a despegado, que se mantém colado apenas para favorecer algum esquema. E o Pacheco foi vendo, com o acumular dos anos, este desamparo de “tantos de nós ludibriando os próprios sonhos da sua juventude, anquilosando ambições mais do que legítimas, minguando-se, limitando-se (…) sem horizontes já para inventar algo melhor. Pendurados na fezada de um futuro, que já não vai ser para eles, isto é, que já os apanha disformes: gordos, apatetados, com cirroses… envelhecidos prematuramente por dentro, e muito sono nas almas, leia-se consciências.” E talvez porque não há luta em comum que nos arranque desse casulo, dessa clausura, desse castigo de se ver a definhar para fazer carreira como “eu”, e nos devolva uns aos outros. “Há qualquer coisa de prostituível em todo o lado em que domina o nosso ‘valor social’, em todo o lado onde se troca uma parte de nós pela mínima retribuição, seja ela, financeira, simbólica, política, afectiva ou sexual” (comité invisível). E, neste ponto, vale a pena retomar a correspondência de Keats, que, numa carta a Richard Woodhouse, trocou o pardal pelo camaleão: “Quanto ao carácter poético em si... não tem um eu; é tudo e é nada: não tem carácter; deleita-se tanto com a luz como com a sombra; vive naquilo de que gosta, seja horrível ou belo, excelso ou humilde, rico ou pobre, mesquinho ou elevado. Sente tanto prazer em conceber um Iago como uma Imogena. Aquilo que choca o filósofo virtuoso deleita o poeta-camaleão... Um poeta é a coisa menos poética que existe; como não tem identidade, tende continuamente a encarnar-se noutros corpos... O poeta não possui nenhum atributo invariável; é, certamente, a menos poética de todas as criaturas de Deus.” Neste episódio, o David voltou para nos dar uma hipótese de tirarmos a barriga de misérias e saltarmos da greve geral para umas luxuriantes patuscadas, conseguidas na base de todo um arsenal de poções e fórmulas científicas aplicadas à exploração gastronómica, sem abdicar, no entanto, daquela elementar dose de porrada e humilhações sem as quais nunca se faz nada, além dos gerais iscos que convencem os lorpas de que têm muita sorte em ter um chulo a ocupar-se deles. Vamos também dar um passeio pela feira do livro de Lisboa pela mão do Pacheco e ouvir as últimas quanto a editores a quem, por maior que seja a crise, nunca há-de faltar um tremendo jeito para o negócio.

6 de jun de 20264 h 36 min
episode A Balsa da Medusa. Uma conversa com Margarida Davim artwork

A Balsa da Medusa. Uma conversa com Margarida Davim

Tudo o que disser aqui pode ser usado contra si. E não é assim, e cada vez mais, em toda a parte? Parece que temos alguma coisa contra a vida. Por princípio, e contrariamente ao que se diz. Só isso explica a falta de ar, a falta de vidas absurdas. No seu estado de demência mais benigna, percebe-se como o mundo cedeu a uma imensa nostalgia do passado. Ninguém saberia, contudo, situá-lo. Na verdade, são doenças da nossa falta de memória. Os delírios de uns débeis. Mas vez por outra lá se cruza connosco um desses seres descarrilados, vendendo beijos com sabor a cerveja, contrariando a ideia de que tudo só se passa muito longe, no cu do mundo. Ainda antes de isso ser tido como um acto político, era vista com o batom a transbordar sempre um pouco dos lábios. O desastre torna-se sugestivo a partir de certa altura, e há quem se apegue a ele, desenvolva por esses sinais uma estima imensa. A realidade, no fundo, interessa-nos muito pouco. Só a partir do momento em que alguém se dispõe a recuperar velhas cassetes, as gravações soluçantes, ficando buracos que é preciso compensar. Uma canção que toca ao longe e que quase se deixa reconhecer, e também a partir de frases cortadas uma linguagem que nos parece desconhecida, feita de réplicas oferecidas em lugares esquecidos. É preferível quando alguém só conhece uma versão parcial, e faz dela o seu todo. Não se põe a investigar todas as circunstâncias, porque a partir de certa altura a enxurrada dos acontecimentos devasta qualquer possibilidade de segurar uma narrativa mais firme. «Não ser amada é um acto de terror», disse ela. Só ter para mostrar a quem a visita naquele quartinho infecto «um coração cheio de moscas negras». E, nas paredes, balouçando, «um alfabeto de más experiências.» É o de sempre: histórias gaguejantes, overdoses, comprimidos para dormir, os bibelôs para compor uma solidão de deserto, e a clara sensação de que tudo caminha para o seu fim. São as impressões o que respira no meio dos relatos. Todos sabemos secretamente que as histórias estão mortas há muito. Hoje, só nos sonhos não nos sentimos ali despejados, desfeitos. Só nos sonhos, as impossibilidades não se apresentam como impossibilidades. Michael Marder diz-nos que após a segunda morte de Deus, convencionalmente chamada secularização, o vazadouro global incita à expiação do ser através da massa em energia, potencialidade pura, inflamável e explosiva. «A existência é tolerada desde que nada permaneça quieto, os seres não se detenham no interior dos seus limites próprios e o próprio ser acelere a caminho do nada.» Por isso prefiro ler como quem tem a sensação de ouvir alguém perdido num transe, como Sara Stridsberg a recolher os sinais da passagem de Valerie Solanas por este mundo. Falar-nos daquele quarto do Hotel Bristol, em abril de 1988, daquela cama que «é um deserto em chamas de tudo o que não fizeste e de tudo o que fizeste mal, profunda como dez mil braças de água de oceanos de tudo o que esqueceste e de todas as vezes que te esqueceste de dizer adeus.» Morreu ali, aos 52 anos, como uma personagem de quem se dizia que não tinha os parafusos todos. Mais um nome a juntar a uma lista, que poderia seguir assim: Valerie. Marilyn. Roslyn. Ulrike. Sylvia. Há tantos narradores empenhados em chegar ao fundo da verdade, apenas para descobrirem que à medida que se aproximam as frases se tornam vazias, tomadas de uma irresolução, de uma fundamental inépcia retórica. Por isso, as histórias são só uma força de atiçar, manter a tensão, para levar as pessoas a confiarem naquilo que já viveram e sabem. Assim sendo, que importa que o narrador exagere ou minta? Que importa saber quem é o narrador? Cada um está entregue ao que viveu já e a partir disso está disposto a imaginar. «A tua memória é um passador», diz uma delas. Todos se esfalfam por abordar um material genuíno, mas acaba por valer mais essa voz capaz de demorar-se até ficar com os pensamentos encardidos, a roupa suja, revelar as suas sujas intenções, a sua baixeza. No fundo, para que alguma coisa sobreviva a este mundo precisa ser arrancada às suas circunstâncias, aquilo que fica na memória dos que registam apenas os contornos mais frios, essa cultura geral da indiferença. Solanas ficou conhecida apenas como mais outra histérica, a feminista radical que, nos anos sessenta, disparou três tiros sobre Andy Warhol, depois de ter participado num dos seus filmes. Os dois primeiros tiros falharam o alvo, mas o terceiro perfurou-lhe o esófago, o estômago, o baço, o fígado e os pulmões. Um ano após o atentado, que a levou a ser internada com um diagnóstico de esquizofrenia, Warhol posou para uma fotografia com a camisa arregaçada, exibindo as marcas das cirurgias. Aquelas cicatrizes deram-lhe a gravidade que lhe permitiam afastar-se da figura de um patético cadáver disponível a tudo para somar mais uns minutos. Havia ali um certo triunfo, uma dimensão insinuante e provocatória. «Vemos Warhol a assimilar o facto da sua própria morte, a processá-lo com a mesma ligeireza inquisitiva e penetrante que animava o resto da sua obra. Se Solanas está presente na fotografia, é apenas sob a forma de um ponto de interrogação, objecto do olhar perplexo de Warhol», registou um artigo numa revista middlebrow, como eles dizem. «Ele tinha controlo excessivo sobre a minha vida», terá dito Solanas ao polícia a quem se entregou, como explicação para o ataque. Se não morreu dos ferimentos provocados pelos disparos, as cirurgias subsequentes a que Warhol foi submetido levaram a passar demasiado tempo na companhia dos moribundos, e era essa vulnerabilidade excessiva que instigou o terror que acabaria por matá-lo, tendo mais tarde recusado procurar tratamento para uma infecção na vesícula biliar até já não haver nada a fazer. Hoje, nada senão esse fetiche dos factos sustenta as maiores ficções, que permitem a alguns estar muito confiantes dos seus esforços para esclarecer a época, e tantas vezes esquecem-se como a condenação deste tempo é a forma como leva «todos os seres a verem-se confundidos nos amontoados caóticos dos refugos, esmagando e sendo esmagados, sobrepondo-se e arrasando-se uns aos outros» (Marder). O jornalismo não pode dizer-nos muito pois não está em condições de ir até ao fundo, e o fundo são as nossas próprias vidas. Solanas tinha escrito um manifesto para a sua «associação para esquartejar os homens» (SCUM, Society for Cutting Up Men). Quando ela foi internada no hospital psiquiátrico, dois tipos que a conheciam encheram-se de dinheiro com uma edição do manifesto. Dez anos depois, quando foi ela a publicá-lo já ninguém estava interessado. Ficou célebre o arranque: «A vida nesta sociedade é, na melhor das hipóteses, tremendamente enfadonha, e nenhum dos seus aspectos é minimamente relevante para as mulheres. Às mulheres civilizadas, responsáveis, que procuram o estímulo, resta apenas a possibilidade de derrubar o governo, eliminar o sistema económico, implantar a automatização integral e aniquilar o sexo masculino. Temos agora possibilidades técnicas de nos reproduzirmos sem o contributo dos homens e de produzir apenas mulheres. Temos de começar imediatamente a pôr isto em prática.  Imediatamente. Conservar os homens não tem sequer o mais duvidoso sentido no plano biológico. Os homens são um desastre biológico: o cromossoma Y é um cromossoma X incompleto, ou seja, um gene com uma composição deficiente de cromossomas. Por outras palavras, o homem é uma mulher incompleta, um fracasso ambulante, falhado logo no estádio do gene. Ser homem é ser uma falha, é ser emocionalmente limitado. A masculinidade é uma deficiência, e os homens são aleijados emocionais. (…) contudo, os homens que são racionais não irão protestar e espernear, nem fazer um alarido patético, vão simplesmente deixar-se ficar sentados, calmamente, desfrutar o espectáculo e cavalgar as ondas até soçobrarem.» Naturalmente, este espectáculo não encherá a plateia do Tivoli. Neste episódio fomos levados pela Margarida Davim a pensar o que pode ser ainda um jornalismo capaz de definir por si mesmo um horizonte muito além dos enredos de conveniência, capaz de nos oferecer alguma coisa além desse chá para os submissos. Fomos postos a par do turbulento e incerto percurso em que está lançada essa balsa daqueles poucos que conseguiram resgatar a Visão, num dos episódios mais conturbados e que melhor ilustram os bastidores daquele que em tempos se tinha como o quarto poder e que hoje anda por aí lançado aos caídos, devendo o melhor de si à obstinação de uns quantos que talvez resista mais à base do desespero do que um resto de utopia requentada.

29 de may de 20264 h 17 min
episode Malcriados, malnascidos, estrangeiros e apátridas. Uma conversa com Diogo Nóbrega artwork

Malcriados, malnascidos, estrangeiros e apátridas. Uma conversa com Diogo Nóbrega

“Também Diane Arbus nos deu, na sua fotografia,/ da loucura não o refúgio (o asilo) mas a corrida/ (atrevida) – ou o passo de dança (Disse, Dança?)./ ‘Pass through the fire to the light’, de novo L. Reed.” Isto é uma costela dessas que arrancamos para palitar a boca que gostaríamos de refazer a cada par de meses, dominados por um assombro que nos leve a um tal grau de estranheza que não tenhamos notícias nenhumas de quem costumávamos ser. Lemos a poesia para cair longe, para desaparecermos, sermos desses que se dão como perdidos. E a tal costela, neste caso, arrancada de um poema de Fernando Guerreiro, segue-se a um desses começos tão auspiciosos por estarem lançados no meio da maior confusão, nessa sua alteração interminável do estilo, uma alegria de ter por objecto o acidente, de viver variado, ir sabendo de si como de algo extraviado, assim, um ser disponível ao trespasse, fantasma de outros, fora dos eixos da sua biografia, abrindo-se a uma temporalidade mais vasta, inquietante… E o tal poema, esse belo estafermo, arranca assim: “Nada de obras completas – apenas champanhe, na primavera e um romance./ Por vezes esquecemo-nos de como morrer é simples –/ de sopro, no coração ou mesmo de cancro./ Num poema de Lou Reed todas as arritmias do espírito/ seriam resolvidas no aneurisma fluido do ritmo.” E aqui vemos Kafka passar ao fundo, aditando uma brevíssima explicação dos seus modos tão esquivos: “Evito as pessoas não porque quero viver sossegadamente, mas sim porque quero morrer sossegadamente.” É um abandono próprio de quem nunca, na verdade, teve qualquer margem de recuo na existência, e entendeu que pelo menos tinha direito a uma morte que não desse espectáculo, que não viesse a servir de gala a larvas e moscas. Afinal, o abandono é a morada que resta àqueles que nunca conheceram neste mundo uma condição propriamente doméstica. Cícero recordava aqui há um bocado um belo dito de Anaxágoras… “este filósofo agonizava em Lâmpsaco e os seus amigos perguntaram-lhe se ele queria, caso acontecesse uma desgraça, que o transportassem para Clazómenas, a sua pátria: ‘É absolutamente inútil’, disse Anaxágoras, ‘de onde quer que se parta para os Infernos, o caminho é o mesmo.’ Mas voltemos à fotografia de Diane Arbus e ao poema de Guerreiro: “talvez seja isso a loucura/ um Haloween dos subúrbios – uma ronda dos espíritos/ em que cada um entra, antes de regressar ao seu túmulo,/ para ensaiar (invertido no seu negativo) uma contra-dança./ Todos juntos, a máscara é ao mesmo tempo o que une e distingue – a bata: o impulso da forma, por onde a carne s’adelgaça – e o corpo, avança.” De algum modo esta é uma sensação comum, a de que este tempo como está só nos oferece um adeus intencionalmente arrastado em duração, a urgência de fazer um tempo contra o mundo, cada um arrastando as correntes para se manter acordado, deixando um rasto húmido e negro, como lesma ulcerosa e maldita. E assim acaba o mundo, não como uma coisa realmente tenebrosa, mas como algo que se faz esperar, ao ponto de alguns se queixarem de até nessa última hora estarmos sujeitos aos atrasos, a ficar na fila que não avança. “Mas esta porra não anda?”, resmunga alguém. Llansol diz que teve conhecimento não sabe onde de rituais primitivos de enterro em que se esvaziava a cavidade ventral de todas as vísceras do morto e aí se depositavam bilhetes com votos escritos… Talvez um ritual desses pudesse devolver algum impulso ao que se escreve, e, por mais que frágeis, nesse bafio doce daquilo que se usa para rechear o morto, talvez isso despertasse uma outra urgência dos vivos para com a vida. Seria um esforço a favor de uma persistência menos ordinária, e isto num momento em que aquilo a que por estes dias se usa tomar como uma atitude culta não é mais que uma disposição para sacralizar disparates, para se entregar a esses tributos que a estupidez presta ao orgulho. Os autores morrem cheios de tesão. Alguém os convenceu de que algo subsistirá dos seus espíritos, e andam por aí convencidos de que essa vergonha de serem inteiramente devassados pela fome da terra, não só pelos nossos corpos, mas por todos os sinais da nossa existência, a eles não poderá roer tudo, uma vez que lhe vão impondo um certo limite. Leram em Steiner que leu em Baruck de Mezbizh… “Quando uma palavra é pronunciada em nome do seu autor, os lábios deste movem-se dentro do túmulo. E os lábios de quem profere a palavra movem-se do mesmo modo que os do Mestre já morto.” É fácil detectar essa gravidade dos que falam com a confiança de que alguém fará deles mestres num porvir de dar à corda, mas a subtileza dos espíritos, toda essa delicadeza dos que desejam repetir-se pela eternidade fora, é precisamente aquilo que mais nos cansa, quando começamos a suspeitar que o verdadeiro génio é a coisa menos talentosa que há. Não está dotado de um dom, mas da sua ausência, de uma maldição, de um sentido dilacerante do tempo, de uma ânsia de explorar a cada momento essas zonas que mais resistem, de mergulhar no interdito, aquilo “que não se deixa dizer e que, justamente nessa medida, é preciso, de cada vez, tentar dizer” (Diogo Nóbrega). O que tem faltado já nem é tanto uma razão, mas a veemência de quem constrói o seu desacordo deixando-se queimar para ver as coisas a uma outra luz, esses seres que se entregam à profundidade vazia, e alcançam o que lhes é exterior, o fora, o Outro, uma força de dar vida a personagens precisamente porque não se insistiu mais em si, no mesmo. William Hazlitt não tem dúvidas de que Shakespeare era um espírito sem educação, tanto na frescura da sua argumentação como na variedade das perspectivas. “Shakespeare não fora acostumado a escrever redacções na escola a favor da virtude ou contra o vício. A isto devemos o tom desinteressado, mas salutar, da sua moralidade dramática.” Neste episódio, alguém que costuma ouvir assiduamente o podcast, quis apontar a alguns aspectos que lhe foram ficando deste esforço excessivo para erguer por cá um mau caminho. Com um balanço tremendo em leituras recomplicadas, densas, e uma estupenda capacidade para aceitar os convites e ciladas que trama aquela potência do falso, Diogo Nóbrega veio também partilhar um percurso memorioso de vorazes leituras, e uma compreensão arguta de alguns dos nós em que vimos esbarrando e que se mostram tão difíceis de desatar.

22 de may de 20264 h 39 min
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Maus fígados, objectivos comuns. Uma conversa com Ricardo Mangerona

Nesta república de sonsos, em breve o ódio terá o melhor de nós, a parcela que, num acesso revoltoso, se esforça ainda por compreender o estado das coisas, e será a última expressão contendo um verdadeiro sinal de fervor, uma paixão indomesticada, e o melhor de um antigo anseio confessional, que, vendo-se livre das peias da civilização, se mostrará tomado por essa virulência de ordem mais ou menos espasmódica, impetuosa, capaz de introduzir algum nível de contraste neste mundo. De resto, à nossa volta tudo é cada vez mais cruel e frio, desapaixonado, incapaz de justificar-se senão com essa lógica desprezível daqueles que parecem dispostos a sacrificar tudo em seu nome, de forma que as existências mais degradantes estão defendidas pelo mais rasteiro dos propósitos, que é o da auto-preservação. De qualquer modo, naquele mundo que hoje temos diante de nós, todo o bem é demasiado relativo, e só no mal se acha ainda algum empenho em direcção ao absoluto. Ansiamos por um tempo que já não nos foi dado viver a não ser por vislumbres, visitações em que certos estados fricativos pareciam apossar-se de nós, e tomávamos o embalo de fúrias que foram sendo vistas sempre como o sinal de que um ser se desatrelou, perdeu o eixo, a noção, danou-se, deu a sua carne e espírito de alimento àquelas regiões mais sórdidas, baixas, infernosas… Por isso se pressente como só em horas perdidas os seres se entregam às explorações dessa dimensão de treva que temos sempre trancada nos fundos. Mas se o ódio às vezes tem em si o melhor de um tipo, e somos levados a livrar-nos desse manancial, a tê-lo como uma substância de que devemos envergonhar-nos, seria bom pensar porque é assim. Num mundo em que de qualquer modo, “cada um, de seu próprio passo, vai para o Diabo à sua maneira” (William Hazlitt), não deixa de ser curioso como ódio se tornou uma reserva íntima, sendo-lhe recusado qualquer papel na vida pública, e o seu efeito no campo político é sempre encarado como algo que os espíritos lúcidos devem contrariar, exorcisar. Como assinala David Graeber, hoje tendemos a assumir que a expressão “política do ódio” possui necessariamente conotações de direita (uma vez que normalmente é aplicada ao racismo, ao ódio étnico ou à homofobia) e, por consequência, que o tabu em torno da expressão do ódio político representa uma vitória de sensibilidades essencialmente de esquerda. Mais à frente, nesse ensaio em que este ensaísta comprometido com o anarquismo nos diz que o ódio foi transformado num tabu político, ele nota como a própria ideia de “crime de ódio” inverte o princípio jurídico tradicional segundo o qual um crime passional deve ser punido menos severamente do que um crime motivado por cálculo frio e interesse pessoal.” Talvez não seja coincidência que a vaga de legislação contra crimes de ódio nos anos 90 tenha sido rapidamente seguida por legislação ‘antiterrorista’, a qual igualmente estipula penas mais pesadas para crimes motivados por paixões políticas (e, dada a forma como as leis costumam ser redigidas, essas paixões podem incluir o mais benevolente idealismo ou amor pela humanidade ou pela natureza) do que para os mesmos crimes cometidos por lucro económico ou interesse privado.” O capitalismo não é senão o triunfo daqueles que dominam uma violência tremenda mas carregada de subterfúgios, de ordem sempre excepcional, o que faz vigorar uma espécie de burocracia torcionária, que consegue sempre construir as excepções que acabam por tornar nulas todas as funções de justiça, e, desse modo, são precisamente os miseráveis que triunfam e impõem as suas funções de ordem escatológica. "Fizeram-se leis, morais, estéticas, para vos impor o respeito pelas coisas frágeis”, dizia Louis Aragon, antes de desferir o seu golpe: “O que é frágil é para partir." Vemos como por toda a parte estamos imersos nos rigores processionais dessa liturgia pública dos sentimentos bondosos, dos valores que são esgrimidos virtuosamente nos discursos, mas que exprimem sempre uma certa dose de consternação diante do mundo, como se alguma coisa tivesse ido contra os planos. Enquanto isso é o ódio que parece levantar suspeitas, como se fosse uma excrescência arcaica, um resto tóxico da animalidade histórica, algo a evacuar por via higiénica, farmacológica ou policial. O ódio tornou-se o afecto interdito. Já não apenas um vício, mas uma espécie de crime atmosférico, e, desse mesmo modo, tudo deve ser moderado, reciclado, transformado em “desconforto”, “mal-estar”, “polarização”. Contudo, por detrás desta moral desinfectada, o ressentimento alastra por toda a parte, tantas vezes acicatado pelas zonas onde a regulação dinamiza um quotidiano em que vamos à procura uns dos outros nessa Cybéria, a fossa da internet 2.0, contaminada pela estimulação nevrótica das burocracias quando aplicadas à gestão de humores para fins de rentabilidade, esse limbo onde cada vez mais os paraísos se artificializam e os infernos animam os mecanismos administrativos de humilhação num tempo que se esburacou e perdeu toda a fantasia e graça ociosa, instalando-se numa ferocidade passivo-agressiva em que tudo cede a outra coisa, em que se articulam os planos e níveis de um infindável enredo distractivo, uma miragem que dissolve tudo, e a própria inteligência definha e perde todo o sentido e alcance. “A única intimidade que nunca vi vacilar ou esmorecer foi a de carácter puramenrte intelectual”, escrevia faz mais de dois séculos Hazlitt. “Não havia nesta nada de hipócrita ou enfadonho, nada dos queixumes de uma sensibilidade lamurienta. Os nossos conhecidos mútuos eram considerados meramente como sujeitos de conversa e de saber, e não de afecto. Não eram vistos nas nossas experiências senão como ‘ratos de laboratório’: ou, como malfeitores, eram regularmente abatidos e deitados na mesa de dissecação. Não poupávamos amigos nem inimigos. Sacrificávamos as deficiências humanas ao altar da verdade. Os esqueletos do carácter podiam ser vistos, depois de extraído o sumo, esvoaçando ao vento como moscas em teias de aranha: ou eram conservados para futura inspecção num frasco de ácido decantado. A demonstração era tão bela quanto nova. Não havia excedente de rancor: nada se conserva tão bem como uma decocção de amargura. Vamos ficando cansados de tudo menos de ridicularizar os outros e de nos congratularmos pelos seus defeitos.” Também Freud terá afirmado que a civilização começou quando um homem, em vez de uma pedra, atirou um insulto. Assim nos foi lembrado por Ricardo Norte, num excelente ensaio sobre as propriedades exaltantes do insulto, em que notava que, ao contrário do que se tornou habitual ouvir da boca dos nossos troca-tintas que gozam até ao limite da tal liberdade de expressão, sem nunca realmente levarem a algum extremo que justifique ou ilustre o vigor desse exercício, as palavras podem magoar muito mais do que um acto. Insultar, etimologicamente, lembrava o Norte, quer dizer saltar sobre, atacar. “Quantos insultos não foram o despertar de obras e gestos memoráveis ao longo da história? Diria mesmo, que a maioria das vezes, é a resposta demorada e reflectida a um insulto que está na génese de muitas obras-primas da literatura. (…) Além disso, o insulto está presente em todo o lado, mesmo entre amigos é recorrente a alcunha insultuosa como demonstração de afecto. A centralidade do insulto no fundamento dos laços humanos é incontestável, ao ponto de Lacan dizer: ‘Há um certo número de funções produzidas pelo facto de o homem habitar na linguagem [...] o ponto de partida da grande poesia, [...] essa relação fundamental estabelecida pela linguagem e que não devemos ignorar: é o insulto. O insulto não é agressão, o insulto é outra coisa completamente diferente, o insulto é grandioso, é a base das relações humanas, não é? Como dizia Homero... Podem ver como cada um obtém o seu estatuto a partir dos insultos que recebe. De que serve tentar camuflar isso com uma tinta qualquer, rosada, chamando-lhe emoção?’ Como ninguém leu e nem soube digerir essa engenhosa licença para a bordoada que o Norte andou empenhadamente a montar, e sempre a nossa favor, não daqueles que têm o prestígio de uma proferição feita apartir de uma destacada tribuna, mas que, por isso, mesmos e tornam mais engenhosos no que toca a ensaiar golpes de rins, golpes baixos e assim por diante, até o Drummond ele apanhou por aí barafustar entredentes, praguejando lá com os seus botões: "Nada acontece/ na cidade. O último crime/ foi cometido no tempo dos bisavós. Ninguém foge de casa, ninguém trai./ Repetição de cores e casos, /ó bolor/ da vida longa, no chão pregada a oitenta/ pregos!/As pessoas se cumprimentam, se perguntam/ sempre as mesmas coisas, esperando /lentas confirmações/ milimetricamente conhecidas./ Ai, tão bem-educadas, as pessoas./ Que fazer para não morrer de paz?” Por tudo isto estamos tão necessitados dos efeitos curativos do ódio, esse que Bernhard manejou e elevou a uma razão infrene, provando que está longe de ser uma emoção descontrolada, um ânimo demencial, mas que é, na verdade, uma ferramenta de precisão, um meio para desconstruir e aniquilar o que é falso, medíocre e opressor. Num momento em que, sob o pretexto de "combater o ódio", tem havido lugar a toda essa proliferação de regulamentos, decretos, leis, que têm como efeito real a criminalização do discurso e são totalmente contrárias àquilo que se chamava democracia, como bem vincou o Norte, é preciso reconhecer que a própria inteligência tem um custo, comporta riscos, sobretudo porque nos compromete com as suas resoluções. E aqui vamos arrancar outra dessas traças imundas coleccionadas naquele ensaio pelo Norte, traças dessas que sujam tudo, servem mesmo para nos mostrar como os seres dedicados a construir ilações profundas parece que sobrecarregam as suas sombras de movimentos, concentram possibilidades de uma acção diferida, como se entender fosse criar sequelas, repetir infinitamente a mesma cena, concebendo essas frases com um poder que leva o leitor a desaprender as letras, como se fosse obrigado a voltar ao período em que tinha de gaguejar as sílabas antes de se achar na posse de uma palavra, e depois da frase. Temos de voltar a isso, a citações que se debatem nas nossas mãos e causam uma certa repulsa, enchendo-as da tinta dessas asas acumuladoras de sombras. Jean-Luc Nancy: "Pensar, ou querer pensar, é pesado. [....] Que peso é esse? Em geral, o peso consiste em estar fora de si, em ter o seu ponto de aterragem ou lugar de presença, a sua terra, chão ou vazio, a sua pertença ou abismo, fora de si. Peso significa cair fora de si mesmo." Neste episódio, quisemos dar expressão à figadeira, virar os frascos e dar alguns sinais dessa linhagem estarrecedora dos seres capazes de pegar em banais escaramuças e transformá-las em contendas lendárias, e nisto fomos incentivados pelas explorações do Ricardo Mangerona, que além de uma estreia com um romance que recoloca esta forma em cena de um modo que nos lembra o vigor das suas soluções, a propriedade muito particular desse enredo cumulativo, generoso, capaz de articular uma crónica ponderosa, e que deixava as suas marcas emocionais, tem feito ainda um percurso invulgar enquanto tradutor, e, depois do estupendo volume dedicado a Hazlitt, “Do Prazer de Odiar e Outros Ensaios”, anda agora a braços com uma reunião das intervenções de David Graeber, que em grande medida ilustram porque a tradição anarquista consegue dar respostas num tempo em que outras linhagens se enredam e se mostram incapazes de qualquer convicção.

15 de may de 20263 h 56 min
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Exorcisar o medo, escapar à tragédia. Uma conversa com Lourença Baldaque

De toda a parte nos chegam avisos quanto a uma crise de autores teatrais, ou do conto, do romance, géneros que déramos como adquiridos, elementos constantes de uma plena função cultural, mas se se perdeu o entusiasmo das formas, aquela audácia com que se partia da realidade como de um mote para depois se tratar certos temas com um cuidado obstinado em animar de um sopro vital algo que pode, sem ele, tornar-se débil, apenas arrastando uma convenção oficial e cansada, há alturas em que tudo o que resta são pequenos salteadores da tradição, que a única coisa que lhe trazem é aquele gesto insolente, cabriolante, blasfemo, trabalhando verdades cada vez mais somíticas, tão parciais que acabam por só dispor de turvos factos e figuras que se desfazem em pó mal as examinamos de perto. Agustina notava que em certas alturas tendem a proliferar as melancolias dos pequenos talentos, sendo que estas chegam a assemelhar-se a infâmias calculadas. Adivinhou há três décadas que aquilo que nos esperava era um crescendo da ganância e uma cultura pedante que se imitaria para não ter que se inventar a si mesma. Não estamos já na companhia desses perdulários encantadores, mas dos associais das superestruturas, e não há já aquela capacidade de se defenderem do mundo alimentando-se da canção perdida que é o passado. No máximo temos nalguns a erudição malabarista, uma instrução que fede as mais das vezes a desembaraçados preconceitos, a banalidade aristocratizada do que passa por sabedoria, mas nada daquela inteligência convulsa, monstruosa, como essa criatura estupenda que se fixou entre nós, e que, entre só umas poucas mais, gozavam desse prestígio dos que punham na boca de cada um dos que com elas se cruzavam as únicas palavras que alguma vez pronunciaram. Impor-se com toda a relevância é um talento assombroso, mas hoje, tenham mais ou menos recursos, é difícil reconhecer nesses frágeis actores, que representam numa teatralidade tosca e excessiva o tal privilégio dos que movem o poder da criação, uma verdadeira intensidade. Não vemos que, nas coisas de que se ocupam com essa luz repartida e triste, consiga nascer seja o que for. Até as mentiras são cada vez mais inábeis… “Não mentem como dantes, não há qualquer contrato de persuasão, de conquista, na mentira”, diz-nos Agustina. “Hoje mente-se por manifesta insolência, quer-se dizer apenas ‘vê que a tua opinião me é indiferente e o que podes pensar não me causa nenhuma perturbação’. Eu vi diante dos meus olhos essa mentira desesperada e fútil”… Surgia, assim, uma geração que mente friamente, assim como se avilta friamente, e nisso escoa todo o seu drama. Não quer contratos com a sabedoria e com a experiência, e depois só resta uma espécie de leviandade carismática. Se em tempos esta escritora podia notar que “a alma de um homem é feita de muitas tentativas doutras almas”, hoje parece até um excesso romântico servir-se desses termos, quando o que prevalece é “o canibalismo moral”, a sede irreprimível de possuir súbditos, seguidores, de subjugar a vontade dos demais, sendo certo que, “quanto mais débil é uma sociedade, mais activa parece ser”, e damos por uns seres que não conseguem seguir nenhum argumento, nenhuma intriga arrojada, nada senão um rastilho boateiro, ficando-se longe daquela indiscrição da inteligência, ficando por dizer o que antes o nevoeiro consertava, esse pigmento de alma que nos era introduzido e que não era nem mero sentimento nem outra coisa que pudesse facilmente ser descrita, mas aquilo a que Agustina chamou “um sabor hamletiano que os portugueses regelam na pele, como se um povo inteiro nele se contivesse, na clausura da sua hereditariedade na fermentação do destino”. Podem até ser exageros de quem sempre nos foi dizendo que não lutava por pessoas ou coisas, mas por sínteses, e que vinha para o romance como para um piano velho, deixando a meninice dedilhar e cantar, com aquele gozo que a música desperta nas feras. Depois dessas ousadias que mais temos senão a tal febre de fatalismo que tomou conta de tudo?, a azeda turbulência e os motivos a que cada um se agarra entre enganos e tristezas remoídas, para de si mesmas transmitirem uma impressão forte, cercadas dos milhares de pessoas manejadas pela publicidade, pela nevrose colectiva de corresponder ao século, no que este tem de programa alienatório. Assim, “tudo são prorrogações e leve maceração de consciências", e, independentemente da forma, não se dá por um escrever e pensar com aquela audácia vingativa. “O que devia ser alado precipita-se no chão sujo dum palco; o que devia ser narrativa poética faz-se uma força antiquada da qual se evade sem pena a nossa imaginação. O que devia surpreender aborrece; o que é fruto de glória parece raquítica pretensão.” Deste modo vemos o processo cultural abster-se de um verdadeiro programa, de tudo aquilo que pudesse definir alguma ambição, porque hoje o sim e o não brotam da trivialidade e são incapazes de nos vincular seja ao que for.  As criações que nos surgem por diante estão a reclamar algo que não existe. Impressiona-nos o patetismo, e basta deter a atenção nessas fórmulas tão lapidares quanto moribundas para se ficar sem vontade de coisa nenhuma, e se alguns espíritos ainda são capazes daquela prosa canalha e desafectada que nos anima um pouco com o seu vigor de insubordinação, sendo possível imaginar que algum ensejo crítico mais empenhado possa desentranhar deste nosso tempo um manifesto urdido por uns quantos contra a habituação de andar no mundo e obedecer-lhe, por outro lado, os versos parvos têm provado ser hoje uma indústria que prolifera para ajuda das convicções desbotadas, esses versos parvos que, segundo Agustina, têm grande audiência porque não comprometem a solidão, só a resguardam mais. Versos parvos que sobrecarregam uma literatura, encontrando o apoio dessa trama mediática que no medíocre vê afinidades honrosas. “Mas importa analisar o fado desta linhagem que temos. As relações entre os que produzem uma obra e os que a divulgam ou só observam são viciadas pelo método do verso parvo. São muitas vezes hipocrisias sem talento, movidas por sinceridades mal-intencionadas. Um autor escreve mal, um artista representa deploravelmente; e logo se lhes encontram parentescos com uma corrente ou outra, parentescos que, a serem autênticos, fariam deles desgraçados. O estilo não permite sucessores sem obrigar a maiores originalidades. A prova de que esse apoio é inútil é que a simpatia não produz carreira. Muitas vezes os amigos são o pesadelo indiscreto duma obra que podia impor-se. Se amam, pervertem; se aplaudem, embevecem, mais do que estimulam. A solidão não é uma vocação; é um desespero cultivado pela arte da vida breve que se repercute no ilimitado.” Neste episódio, veio conversar connosco Lourença Baldaque, escritora que tem publicado nos mais diversos registos desde 2005, e que criou as edições Fauve&Rouge, persistindo de forma discreta, empenhada, tendo como finalidade assumida a vital procura de um tempo literário. Além de ter traduzido e publicado autores franceses como Jules Renard, Jules Barbey d’Aurevilly e Balzac, tem traduzido de outras línguas, tendo sido responsável pela tradução da correspondência da avó (Agustina) com o escritor argentino Juan Rodolfo Wilcock e foi responsável pela recolha e organização da monumental edição em três volumes dos ensaios e artigos publicados por Agustina na imprensa entre 1951 e 2007. Se hoje a lenta réstia do seu farol ainda actua entre nós e tem alguma coisa de função esquecida, é sempre possível, ainda que arriscado e exigente, trazê-la de volta ao nosso convívio, sobretudo quando, apesar de toda a farra, a cultura recaiu numa espécie de pudor do isolamento, de ancilose, e há um tremendo receio do confronto, uma vez que mesmo as pessoas abdicam da sua constituição e se deixam transformar em miragens, “e como ectoplasmas não têm mistério, assim flutuam indiferenciadamente no grande oceano da informação”.

9 de may de 20264 h 57 min