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"A Cidade e as Serras", Capítulos XV e XVI, de Eça de Queirós

42 min · 1. aug. 202142 min
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Beskrivelse

Capítulos XV e XVI (último capítulo), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. TRANSCRIÇÃO — XV E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Príncipe já não é o último Jacinto, Jacinto ponto final — porque naquele solar que decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. É até monótono, pela perfeição da beleza moral, aquele homem tão pitoresco pela desinquietação filosófica e pelos pitorescos tormentos da fantasia insaciada. Quando ele agora, bom sabedor das coisas da lavoura, percorria comigo a quinta, em sólidas palestras agrícolas, prudentes e sem quimeras — eu quase lamentava esse outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de árvore e, riscando o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcelana, para fabricar queijinhos que custariam cada um duzentos mil réis! Também a paternidade lhe despertara a responsabilidade. Jacinto possuía agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lápis, com folhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despesas, as suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitara já as suas propriedades de Montemor, da Beira, a Avelã, e consertava, mobilava as velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais tarde, crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas onde eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso equilíbrio se estabelecera na alma do meu Príncipe, foi quando ele, já saído daquele primeiro e ardente fanatismo da Simplicidade — entreabriu a porta de Tormes à Civilização. Dois meses antes de nascer a Teresinha, uma tarde, entrou pela avenida de faias uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a freguesia, e ajoujados de caixotes. Eram os famosos caixotes há um ano encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam trazendo, para despejar a Cidade sobre a Serra. Eu pensei: «Mau! o meu pobre Jacinto teve uma recaída!» Mas os confortos mais complicados, que continha aquela caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados para os sótãos imensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janelas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para que os repousos, que ele imaginara, fossem mais lentos e suaves. Atribuí esta moderação a minha prima Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude. Ela jurou que assim o ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas, tremi. Aparecera, vindo de Lisboa, um contramestre, com operários, e mais caixotes, para instalar um telefone! — Um telefone, em Tormes, Jacinto? O meu Príncipe explicou, com humildade: — Para casa de meu sogro!… Bem vês. Era razoável e carinhoso. O telefone porém, subtilmente, mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacinto, alargando os braços, quase suplicante: — Para casa do médico. Bem. Compreendes… Era prudente. Mas, uma manhã, em Guiães, acordei aos berros da tia Vicência! Um homem chegara, misterioso, com outros, trazendo arame, para instalar na nossa casa o telefone. Calmei a tia Vicência, jurando que essa máquina nem fazia barulho, nem trazia doenças, nem atraía as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo os ombros: — Que queres? Em Guiães está o boticário, está o carniceiro… E, depois, estás tu! Era fraternal. Mas pensei: «Estamos perdidos! Dentro de um mês temos a pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma máquina!» Pois não! O Progresso, que, à intimação de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara um reino novo para desfiar, desceu, silenciosamente, despedido, e não avistámos mais sobre a serra a hirta sombra cor de ferro e de fuligem. Então compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o equilíbrio da vida, e com ele a Grã-Ventura, de que tanto fora o Príncipe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o nosso velho Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra lhe dera meninos para trazer às cavaleiras, — observei ao digno preto, que lia o seu «Figaro», armado de imensos óculos redondos: — Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o sr. D. Jacinto está firme. O Grilo arredou os óculos para a testa, e levantando para o ar os cinco dedos em círculo como pétalas de uma túlipa: — Sua Excelência brotou! Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de Cidade, plantado na Serra, pegara, chupara o húmus do torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos, cem casais em redor o bendiziam. XVI Muitas vezes, Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Mas depois conveio esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder jornadear com conforto, e apontando já com o seu dedo para as coisas da Civilização. Mas quando ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui tão bem! Está um tempo tão lindo!» murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do seu Jacinto; ele sacudia logo Paris, encantado. «Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!» Mas em Abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de Março garantiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem feita, viúva que sentia as necessidades do meu coração, partira com o irmão para o Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e, certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. Depois a minha égua morreu… Parti eu para Paris. Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202, — decerto por eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E, oh surpresa!, eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita: — Eh, Fernandes! Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202. Com que reconhecimento lhe sacudi a mão fina — por ele me ter reconhecido! E, atirando para o canto do vagão um paletó, um maço de jornais que o escudeiro lhe passara — o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre: — E Jacinto? Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia às cavaleiras. — Ah que canalha! — exclamou Marizac com os olhos espetados em mim. — É capaz de ser feliz! — Espantosamente, loucamente… Qual! Não há advérbios… — Indecentemente — murmurou Marizac muito sério. — Que canalha! Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os ombros, acendendo a cigarette: — Todo esse mundo circula… — Madame d’Oriol? — Continua. — Os Trèves? O Efraim? — Continuam, todos três. Lançou um gesto lânguido. — Em cinco anos, em Paris, tudo continua… As mulheres com um pouco mais de pós de arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um bocado mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno… E — et voilà! — Dornan? — Continua… Não o encontrei mais desde o 202… Mas vejo às vezes o nome dele, no «Boulevard», com versos preciosos, obscenidades muito apuradas, muito subtis. — E o psicólogo?… Ora, como se chamava ele?… — Continua também. Sempre com as feminices a três francos e cinquenta… Duquesas em camisa, almas nuas… Coisas que se vendem bem! Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do grão-duque, o comboio entrou na estação de Biarritz — e rapidamente, apanhando o paletó e os jornais, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac saltou pela portinhola, que o seu criado abrira, gritando: — Até Paris!… Sempre Rue Cambon! Então, no compartimento solitário, bocejei, com uma estranha sensação de monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas, com histórias muito sabidas, que murmuravam coisas muito ditas, através de sorrisos muito estafados. Dos dois lados do comboio era a longa planície monótona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, toda de um verde de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom alegre de flor, nem um acidente do solo, desmanchavam a mediocridade discreta e ordeira. Pálidos e finos choupos, em renques pautados e finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o céu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um Sol descorado, parecia um vasto manto lavado a grande água, até que de todo se lhe safasse o esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez. Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnância no profundo, sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de grossos veludos, grossos cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova de penas sonhei que em Tormes se construíra uma Torre Eiffel, e que em volta dela as senhoras da Serra, as mais respeitáveis, até a tia Albergaria, dançavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas imensos. Com as comoções deste pesadelo, e depois o banho, e o desemalar da mala, já se acercavam as duas horas quando enfim emergi do grande portão, pisei, ao cabo de cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que todos esses cinco anos eu ali estivera à porta do Grand-Hotel, tão estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar da Cidade, e as magras árvores, e as grossas tabuletas, e os imensos chapéus emplumados sobre tranças pintadas de amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da Legião de Honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fósforos obscenas… «Santo Deus!», pensei, «há que anos eu estou em Paris!» Comprei então, num quiosque, um jornal, a «Voz de Paris», para que ele me contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, alastrada de jornais ilustrados — e em todos se repetia a mesma mulher, sempre nua, ou meio despida, ora mostrando as costelas magras, de gata faminta, ora voltando para o leitor duas tremendas nádegas… Eu murmurei: — Santo Deus! — No Café da Paz, o criado lívido, e com um resto de pó de arroz sobre a lividez, aconselhou ao meu apetite (comera tão tarde) um linguado frito e uma costeleta. — E que vinho, senhor conde? — Chablis, senhor duque! Ele sorriu à minha deliciosa pilhéria, — e eu abri, contente, a «Voz de Paris». Na primeira coluna, através de uma prosa muito retorcida, toda em brilhos de jóia barata, entrevi uma princesa nua, e um capitão de dragões, que soluçava. Saltei a outras colunas, onde contavam feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra página escritores eloquentes celebravam vinhos digestivos e tónicos. Depois eram crimes. — Não há nada de novo! — Sacudi a «Voz de Paris», — e então foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O miserável, que se frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descolasse da sua espinha uma febra escassa. Todo ele se ressequira numa sola impenetrável e tostada, onde a faca vergava, impotente e trémula. Gritei pelo moço lívido — que, com faca mais rija, fincando no soalho os sapatos de fivela, arrancou enfim àquele malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada findei a costeleta. E paguei quinze francos com um bom luís de ouro. No troco, que o moço me deu, com uma polidez deliciosa de uma civilização muito espalhada, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde de Maio eu saí para tomar no terraço um café cor de chapéu-coco, que sabia a fava. Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos ónibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente, com toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele movimento indescontinuado e rude depressa entonteceu este espírito, por cinco quietos anos afeito à quietação das serras imutáveis. Tentava então, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel, ónibus que parara, fiacre que estacara num brusco escorregar da pileca: mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipóia, ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o ónibus — e, rápido, recomeçava o rolar retumbante. Imóveis, decerto, eram os altos prédios hirtos, como as hirtas ribas de pedra e cal, que continham, disciplinavam, a torrente ofegante. Mas da rua aos telhados, em cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas encimando tabuletas, que outras tabuletas apertavam — e mais me cansava o perceber a incessância do trabalho, a rija canseira do lucro, que arfava por trás das fachadas decorosas e mudas. E então enquanto fumava o meu charuto, estranhamente se apossaram de mim os sentimentos que Jacinto outrora experimentava no meio da Natureza, e que tanto me divertiam. Ali, à porta do café, entre a indiferença e a pressa da Cidade, também eu senti, como ele no Campo, a vaga tristeza da minha fragilidade e da minha solidão. Bem certamente estava ali como perdido num mundo que me não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se interessaria por Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse, ninguém me daria metade do seu pão. Por mais aflitamente que a minha face revelasse uma angústia, ninguém na sua pressa pararia para me consolar. De que me serviriam também as excelências da alma, que só na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba não se importaria com a minha santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no Boulevard «Ó homens, meus irmãos!», os homens, mais ferozes que o lobo de Agubio ante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam indiferentes. Dois impulsos únicos, correspondendo a duas funções únicas, parecia estarem vivos naquela multidão, — a do lucro, a do gozo. Isolada entre eles, e ao contágio ambiente da sua influência, em breve a minha alma se contrairia, se tornaria num duro calhau de Egoísmo. Do ser que eu trouxera da Serra, composto com tolerável nobreza, só restaria esse calhau de Egoísmo, e nele, vivos, os dois apetites de Cidade, — encher a bolsa, saciar a carne! E as mesmas exagerações de Jacinto ante a Natureza me invadiam aplicadas à Cidade. Aquele Boulevard já me ressumava um bafo mortal, exalado dos milhões dos seus micróbios. De cada porta me parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face avistada à portinhola de um fiacre, suspeitava um bandido trabalhando; todas as mulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo só por dentro podridão. E considerava de uma melancolia funambulesca cútis e formas de toda aquela Multidão, a sua pressa esperta e vã, a afectação das atitudes, as imensas plumas das chapeletas, as expressões postiças e arranjadas, a pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, mas assim eu sentia também que necessitava remergulhar na Serra, para que o seu puro ar me secasse e se me despegasse a crosta da Cidade, e eu ressurgisse humano, e Zé Fernândico! Então, para dissipar aquele pesadume de solidão, paguei o café e parti, lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estação dos ônibus, pensei: «Que será feito de Madame Colombe?» E, oh miséria!, pelo meu miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e que me envolvia nas emanações subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da Rue Royale para a Praça da Concórdia, topei com um robusto e possante homem, que estacou, ergueu o braço, o vozeirão, num modo de comando: — Eh, Fernandes! O grão-duque! O belo grão-duque, de jaquetão alvadio, e chapéu tirolês cor de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do príncipe, que me reconhecera. — E Jacinto? Em Paris?… Contei Tormes, a serra, o seu rejuvenescimento entre a Natureza, minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia às cavaleiras. O grão-duque encolheu os ombros, desolado: — Oh lá, lá, lá!… Peuh! Casado, na aldeia, com filharada… Homem perdido! Ora, ora!… E um homem útil!, que nos divertia, e com gosto! O cor-de-rosa! uma festa deliciosa… Não se fez, não se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris… E então Madame d’Oriol… Ainda há dias a vi no Palácio de Gelo… Potável, mulher ainda muito potável… Não é o meu género… Adocicada, leitosa, pomadada, neve à la vanille!… Ora esse Jacinto!… — E Vossa Alteza, em Paris, com demora? O formidável homem baixou a face, franzida e confidencial: — Nenhuma. Paris já se não aguenta… Está estragada, positivamente estragada… Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gaillon, o Ernest, que era maître-d’hotel do Maire. Já lá comeu? Não? Um horror. Tudo é o Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá almocei… Um horror! Uma salada Chambord… falhada, indecentemente falhada! Não tem, não tem a noção da salada! Paris foi! Teatros, uma manada. Mulheres, penh, tudo melado. Não há nada! Ainda assim, num daqueles teatritos de Montmartre, na Roulotte, há uma revista, que se vê: «Para cá as Mulheres» — engraçada, bem despida… A Celestine tem uma cantiga, meio sentimental, meio porca, o «Amor no Water-Closet» que diverte, tem topete… Onde está, Fernandes? — No Grand-Hotel, meu senhor. — Sofrível barraca… E o seu rei sempre bom? Curvei a cabeça: — Sua Majestade, sempre bem. — Ainda bem, Fernandes, tive prazer… Esse Jacinto é que me desola! Pois vá ver a revista… Boas pernas, a Celestine… E tem graça o tal «Amor no Water-Closet». Um rijíssimo aperto de mão, — e Sua Alteza subiu pesadamente para a vitória, ainda com um aceno amável, que me penhorou… Excelente homem, este grão-duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os Campos Elísios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda verde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, velocípedes. Parei a contemplar aquela fealdade nova, estes inumeráveis espinhaços arqueados, e gâmbias magras, pedalando escarranchados sobre duas rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente. Galfarros esguios, de gâmbias finas, fugiam numa linha esfuziada. E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes, giravam, mais rapidamente, no prazer equívoco da carreira escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas máquinas passavam, vitórias e faetontes a vapor, com uma complicação de tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando numa trepidação estridente, espalhando um grosso fedor de petróleo. Segui para o 202, pensando: «Se um grego do tempo de Fídias visse esta nova beleza e graça do caminhar humano!…» No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento de Jacinto, e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu aparecesse, justamente quando tudo se andara limpando para a entrada da Primavera. Mas quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha solidão. Não restava em toda ela nem um dos costumados aspectos que me revivesse a velha camaradagem com o meu Príncipe. Logo na antecâmara, grandes lonas recobriam as tapeçarias heróicas — e a mesma lona parda escondia os estofos das paredes e dos móveis, as largas estantes de ébano na Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados como doutores num concílio pareciam assim separados do Mundo, por aquele pano que sobre eles descera, depois de finda a comédia da sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa de ébano, desaparecera aquela matula de instrumentozinhos, de que eu perdera a memória: e só a Mecânica sumptuosa, por sobre peanhas e pedestais, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, rigidezas de metais, numa frieza morta, na inércia definitiva das coisas desusadas, como já dispostas num museu, para exemplificar a instrumentação caduca de um mundo passado. Tentei mover o telefone, que se não moveu; a mola da electricidade não acendeu nenhum lume: todas as forças universais tinham abandonado o serviço do 202, como servos despedidos. E então, passeando através das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de antiguidades, e que mais tarde outros homens, com uma compreensão mais pura e exacta da Vida e da Felicidade, percorreriam, como eu, longas salas, atulhadas com os instrumentos da Supercivilização, e, como eu, encolhendo desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, agora para sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardado debaixo da lona. Quando saí do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas rolara momentos pela Avenida das Acácias, no silêncio decoroso, apenas cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso, imóveis, o mesmo pó de arroz, as mesmas pálpebras amortecidas, os mesmos olhos farejantes, na mesma imobilidade de cera! O homem do «Boulevard» passou numa vitória, fixou em mim o binóculo defumado, mas permaneceu indiferente. Os bandós negros de Madame Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros, entre a harmonia de todo o branco que a vestia, chapéu, plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu peito imenso se empolava como uma onda. No passeio, sob as acácias, espapado em duas cadeiras, o director do «Boulevard» mamava o resto do seu charuto. Madame de Trèves continuava o seu sorriso de há cinco anos, com duas pregazinhas mais moles aos cantos dos lábios secos. Abalei para o Grand-Hotel, bocejando, — como outrora Jacinto. E findei o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma comédia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo Parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava à volta de uma Cama, onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nádegas, cozinheiras de meias de seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a faiscar de cio e de pilhéria. Tomei um chá melancólico no Julien, entre um áspero e lúgubre farejar de prostitutas, farejando a presa. Em duas, de pele oleosa e cobreada, olhos oblíquos, cabelos duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocação felina. Interroguei o criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e lívida, de eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda: — Mulheres de Madagáscar… Foram importadas logo que a França ocupou a ilha! Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartava havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova, e de pós de arroz, de entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que já de manhã, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços garrafas do nosso rascante e rústico vinho de Torres, enobrecido com o título de Château Isto, Château Aquilo, e pó postiço no gargalo. À noite, nos teatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro e único fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes de erotismo, zumbindo pilhérias senis. Esta sordidez da Planície me levou a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da Colina, em Montmartre — e aí, no meio de uma multidão elegante de Senhoras, de Duquesas, de Generais, todo o pessoal da Cidade, recebia, do alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delícia os corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das Nobres Damas. E recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente comigo, por me não divertir, não compreender a Cidade, e errar através dela e da sua Civilização Superior, com a reserva ridícula de um Censor, de um Catão austero. «Oh senhores!», pensava eu, «pois não me divertirei nesta deliciosa cidade?» Entrara comigo o bolor da velhice? Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos cafés, a memória da minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e muito larga, como talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, sobre as instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, logo o seu dizer elegante e límpido foi sufocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor parou — espalhando em redor um olhar frio e sereno, depois remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado — ele recomeçou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e substanciais, expressas numa língua pura e forte — mas, imediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, por entre magras mãos, que se estendiam para estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um macfarlane de xadrez, contemplava o tumulto com melancolia, pingando endefluxado. Perguntei ao velho: — Que querem eles? É embirração com o professor… Política? O velho abanou a cabeça, espirrando: — Não… É sempre assim, agora, em todos os cursos… Não querem ideias… Creio que queriam cançonetas, porcarias. Amor da troça. Então, indignado, berrei: — Silêncio, brutos! E eis que um abortozinho, amarelado e sebento, de longas melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me grita: — Sale maure! Ergui o meu tremendo punho serrano, — e o desgraçado, numa confusão de melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como um montão de trapos moles, ganindo desesperadamente, — enquanto o furacão de uivos e cacarejos, e guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os braços, esperando, com uma serenidade simples. Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade — e o único dia alegre e divertido que nela passei, foi o derradeiro, comprando para os meus queridinhos de Tormes brinquedos consideráveis, tremendamente complicados pela Civilização, — vapores de aço e cobre, providos de caldeiras para viajar em tanques; leões de pele verídica rugindo pavorosamente; bonecas vestidas pela Laferrière, com fonógrafos no ventre… E enfim abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o Boulevard, um adeus à Cidade: — Pois adeuzinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas. E o que tens de bom, que é o teu génio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio! Enfim numa tarde de domingo, debruçado da janela do comboio, que vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num silêncio todo feito de azul e sol, avistei na plataforma da quieta estação, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava na mão uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e beijei aquela tribo bem-amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo de uma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar a Serra, até beijoquei o Pimentinha, que a estalar de obesidade se açodava gritando ao carregador com o cuidado das minhas malas. Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano, jaqueta, e polainas altas, de novo me abraçou: — E esse Paris? — Medonho! De novo abri os braços para o bravo Jacintinho. — Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro? — Do castelo! — declarou ele com uma bela seriedade nos seus grandes olhos. A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da chegada do Ti-Zé, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e não a largara, com ela almoçara, com ela descera de Tormes! — Bravo! E, oh prima Joaninha, olhe que está magnífica! Eu, também, venho daquelas peles meladas de Paris… Mas acho-a triunfal! E o tio Adrião, e a tia Vicência? — Tudo óptimo! — gritou Jacinto. — A serra, Deus louvado, prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilização. No pátio debaixo da figueira, que revi com gosto, esperavam os três cavalos, e dois belos burros brancos, um com cadeirinha, para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter dentro o heróico Jacintinho, ambos levados à rédea por dois criados. E ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador apareceu com um maço de jornais e papéis, que eu esquecera na carruagem. Era uma papelada, de que eu me sortira na estação de Orléans, toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo: — Deita isso fora! E eu atirei para um montão de lixo, ao canto do pátio, aquela podridão da ligeira Civilização. E montei. Mas, já ao dobrar para o caminho empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, que eu esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o monturo de lixo, apanhava, sacudia, recolhia com amor aquelas belas estampas, que chegavam de Paris, contavam as delícias de Paris, derramavam através do mundo a sedução de Paris. Em fila começámos a subir para a serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes de flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Janelas distantes de casas amáveis flamejavam com um fulgor de ouro. A serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, dentro do seu cesto, com a haste bem agarrada na mão. Era a bandeira do castelo, afirmava ele muito sério. E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através da Natureza campestre e mansa, — o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu, — tão longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, serenamente e seguramente subíamos — para o Castelo da Grã-Ventura! FIM

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episode "A Cidade e as Serras", Capítulos XV e XVI, de Eça de Queirós cover

"A Cidade e as Serras", Capítulos XV e XVI, de Eça de Queirós

Capítulos XV e XVI (último capítulo), em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. TRANSCRIÇÃO — XV E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Príncipe já não é o último Jacinto, Jacinto ponto final — porque naquele solar que decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. É até monótono, pela perfeição da beleza moral, aquele homem tão pitoresco pela desinquietação filosófica e pelos pitorescos tormentos da fantasia insaciada. Quando ele agora, bom sabedor das coisas da lavoura, percorria comigo a quinta, em sólidas palestras agrícolas, prudentes e sem quimeras — eu quase lamentava esse outro Jacinto que colhia uma teoria em cada ramo de árvore e, riscando o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcelana, para fabricar queijinhos que custariam cada um duzentos mil réis! Também a paternidade lhe despertara a responsabilidade. Jacinto possuía agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lápis, com folhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despesas, as suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitara já as suas propriedades de Montemor, da Beira, a Avelã, e consertava, mobilava as velhas casas dessas propriedades para que os seus filhos, mais tarde, crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas onde eu reconheci que definitivamente um perfeito e ditoso equilíbrio se estabelecera na alma do meu Príncipe, foi quando ele, já saído daquele primeiro e ardente fanatismo da Simplicidade — entreabriu a porta de Tormes à Civilização. Dois meses antes de nascer a Teresinha, uma tarde, entrou pela avenida de faias uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a freguesia, e ajoujados de caixotes. Eram os famosos caixotes há um ano encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam trazendo, para despejar a Cidade sobre a Serra. Eu pensei: «Mau! o meu pobre Jacinto teve uma recaída!» Mas os confortos mais complicados, que continha aquela caixotaria temerosa, foram, com surpresa minha, desviados para os sótãos imensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janelas desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para que os repousos, que ele imaginara, fossem mais lentos e suaves. Atribuí esta moderação a minha prima Joaninha, que amava Tormes na sua nudez rude. Ela jurou que assim o ordenara o seu Jacinto. Mas, decorridas semanas, tremi. Aparecera, vindo de Lisboa, um contramestre, com operários, e mais caixotes, para instalar um telefone! — Um telefone, em Tormes, Jacinto? O meu Príncipe explicou, com humildade: — Para casa de meu sogro!… Bem vês. Era razoável e carinhoso. O telefone porém, subtilmente, mudamente, estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacinto, alargando os braços, quase suplicante: — Para casa do médico. Bem. Compreendes… Era prudente. Mas, uma manhã, em Guiães, acordei aos berros da tia Vicência! Um homem chegara, misterioso, com outros, trazendo arame, para instalar na nossa casa o telefone. Calmei a tia Vicência, jurando que essa máquina nem fazia barulho, nem trazia doenças, nem atraía as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacinto sorriu, encolhendo os ombros: — Que queres? Em Guiães está o boticário, está o carniceiro… E, depois, estás tu! Era fraternal. Mas pensei: «Estamos perdidos! Dentro de um mês temos a pobre Joana a apertar o vestido por meio de uma máquina!» Pois não! O Progresso, que, à intimação de Jacinto, subira a Tormes a estabelecer aquela sua maravilha, pensando talvez que conquistara um reino novo para desfiar, desceu, silenciosamente, despedido, e não avistámos mais sobre a serra a hirta sombra cor de ferro e de fuligem. Então compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o equilíbrio da vida, e com ele a Grã-Ventura, de que tanto fora o Príncipe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o nosso velho Grilo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra lhe dera meninos para trazer às cavaleiras, — observei ao digno preto, que lia o seu «Figaro», armado de imensos óculos redondos: — Pois, Grilo, agora realmente bem podemos dizer que o sr. D. Jacinto está firme. O Grilo arredou os óculos para a testa, e levantando para o ar os cinco dedos em círculo como pétalas de uma túlipa: — Sua Excelência brotou! Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de Cidade, plantado na Serra, pegara, chupara o húmus do torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos, cem casais em redor o bendiziam. XVI Muitas vezes, Jacinto, durante esses anos, falara com prazer num regresso de dois, três meses, ao 202, para mostrar Paris à prima Joaninha. E eu seria o companheiro fiel, para arquivar os espantos da minha serrana ante a Cidade! Mas depois conveio esperar que o Jacintinho completasse dois anos, para poder jornadear com conforto, e apontando já com o seu dedo para as coisas da Civilização. Mas quando ele, em Outubro, fez esses dois anos desejados, a prima Joaninha sentiu uma preguiça imensa, quase aterrada, do comboio, do estridor da Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui tão bem! Está um tempo tão lindo!» murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao rijo pescoço do seu Jacinto; ele sacudia logo Paris, encantado. «Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos Elísios estiverem em flor!» Mas em Abril vieram aqueles cansaços que imobilizavam a prima Joaninha no divã, ditosa, risonha, com umas pintas na pele, e o roupão mais solto. Por todo um longo ano estava desfeita a alegre aventura. Eu andava então sofrendo de desocupação. As chuvas de Março garantiam uma farta colheita. Uma certa Ana Vaqueira, corada e bem feita, viúva que sentia as necessidades do meu coração, partira com o irmão para o Brasil, onde ele dirigia uma venda. Desde o Inverno, sentia também no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e, certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor. Depois a minha égua morreu… Parti eu para Paris. Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento, como pombo a um velho pombal, voou ao 202, — decerto por eu ver um enorme cartaz em que uma mulher nua, com flores bacânticas nas tranças, se estorcia, segurando numa das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na outra, para o anunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E, oh surpresa!, eis que, logo adiante, na estação quieta e clara de Saint-Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegância, entra vivamente no meu compartimento, e, depois de me encarar, grita: — Eh, Fernandes! Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202. Com que reconhecimento lhe sacudi a mão fina — por ele me ter reconhecido! E, atirando para o canto do vagão um paletó, um maço de jornais que o escudeiro lhe passara — o bom Marizac exclamava na mesma surpresa alegre: — E Jacinto? Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro grande amor por minha prima, e os dois filhos, que ele trazia às cavaleiras. — Ah que canalha! — exclamou Marizac com os olhos espetados em mim. — É capaz de ser feliz! — Espantosamente, loucamente… Qual! Não há advérbios… — Indecentemente — murmurou Marizac muito sério. — Que canalha! Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Ele encolheu os ombros, acendendo a cigarette: — Todo esse mundo circula… — Madame d’Oriol? — Continua. — Os Trèves? O Efraim? — Continuam, todos três. Lançou um gesto lânguido. — Em cinco anos, em Paris, tudo continua… As mulheres com um pouco mais de pós de arroz, e a pele um pouco mais mole, e melada. Os homens com um bocado mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os Anarquistas. A princesa de Carman abalou com um acrobata do Circo de Inverno… E — et voilà! — Dornan? — Continua… Não o encontrei mais desde o 202… Mas vejo às vezes o nome dele, no «Boulevard», com versos preciosos, obscenidades muito apuradas, muito subtis. — E o psicólogo?… Ora, como se chamava ele?… — Continua também. Sempre com as feminices a três francos e cinquenta… Duquesas em camisa, almas nuas… Coisas que se vendem bem! Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do grão-duque, o comboio entrou na estação de Biarritz — e rapidamente, apanhando o paletó e os jornais, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac saltou pela portinhola, que o seu criado abrira, gritando: — Até Paris!… Sempre Rue Cambon! Então, no compartimento solitário, bocejei, com uma estranha sensação de monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas, com histórias muito sabidas, que murmuravam coisas muito ditas, através de sorrisos muito estafados. Dos dois lados do comboio era a longa planície monótona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente retalhada, toda de um verde de reseda, verde cinzento e apagado, onde nenhum lampejo, nem tom alegre de flor, nem um acidente do solo, desmanchavam a mediocridade discreta e ordeira. Pálidos e finos choupos, em renques pautados e finos, bordavam canaizinhos muito direitos e claros. Os casais, todos da mesma cor pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautela. E o céu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um Sol descorado, parecia um vasto manto lavado a grande água, até que de todo se lhe safasse o esmalte e o brilho. Adormeci numa doce insipidez. Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnância no profundo, sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de grossos veludos, grossos cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. Nessa profunda cova de penas sonhei que em Tormes se construíra uma Torre Eiffel, e que em volta dela as senhoras da Serra, as mais respeitáveis, até a tia Albergaria, dançavam, nuas, agitando no ar saca-rolhas imensos. Com as comoções deste pesadelo, e depois o banho, e o desemalar da mala, já se acercavam as duas horas quando enfim emergi do grande portão, pisei, ao cabo de cinco anos, o Boulevard. E imediatamente me pareceu que todos esses cinco anos eu ali estivera à porta do Grand-Hotel, tão estafadamente conhecido me era aquele estridente rolar da Cidade, e as magras árvores, e as grossas tabuletas, e os imensos chapéus emplumados sobre tranças pintadas de amarelo, e as empertigadas sobrecasacas com grossas rosetas da Legião de Honra, e os garotos, em voz rouca e baixa, oferecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de fósforos obscenas… «Santo Deus!», pensei, «há que anos eu estou em Paris!» Comprei então, num quiosque, um jornal, a «Voz de Paris», para que ele me contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do quiosque desaparecia, alastrada de jornais ilustrados — e em todos se repetia a mesma mulher, sempre nua, ou meio despida, ora mostrando as costelas magras, de gata faminta, ora voltando para o leitor duas tremendas nádegas… Eu murmurei: — Santo Deus! — No Café da Paz, o criado lívido, e com um resto de pó de arroz sobre a lividez, aconselhou ao meu apetite (comera tão tarde) um linguado frito e uma costeleta. — E que vinho, senhor conde? — Chablis, senhor duque! Ele sorriu à minha deliciosa pilhéria, — e eu abri, contente, a «Voz de Paris». Na primeira coluna, através de uma prosa muito retorcida, toda em brilhos de jóia barata, entrevi uma princesa nua, e um capitão de dragões, que soluçava. Saltei a outras colunas, onde contavam feitos de cocottes de nomes sonoros. Na outra página escritores eloquentes celebravam vinhos digestivos e tónicos. Depois eram crimes. — Não há nada de novo! — Sacudi a «Voz de Paris», — e então foi, entre mim e o linguado, uma luta pavorosa. O miserável, que se frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descolasse da sua espinha uma febra escassa. Todo ele se ressequira numa sola impenetrável e tostada, onde a faca vergava, impotente e trémula. Gritei pelo moço lívido — que, com faca mais rija, fincando no soalho os sapatos de fivela, arrancou enfim àquele malvado duas tirinhas, finas e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. De uma garfada findei a costeleta. E paguei quinze francos com um bom luís de ouro. No troco, que o moço me deu, com uma polidez deliciosa de uma civilização muito espalhada, havia dois francos falsos. E por aquela doce tarde de Maio eu saí para tomar no terraço um café cor de chapéu-coco, que sabia a fava. Com o charuto aceso contemplei o Boulevard, àquela hora em toda a pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos ónibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente, com toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, numa pressa inquieta. Aquele movimento indescontinuado e rude depressa entonteceu este espírito, por cinco quietos anos afeito à quietação das serras imutáveis. Tentava então, puerilmente, repousar nalguma forma imóvel, ónibus que parara, fiacre que estacara num brusco escorregar da pileca: mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipóia, ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o ónibus — e, rápido, recomeçava o rolar retumbante. Imóveis, decerto, eram os altos prédios hirtos, como as hirtas ribas de pedra e cal, que continham, disciplinavam, a torrente ofegante. Mas da rua aos telhados, em cada varanda, por toda a fachada, eram tabuletas encimando tabuletas, que outras tabuletas apertavam — e mais me cansava o perceber a incessância do trabalho, a rija canseira do lucro, que arfava por trás das fachadas decorosas e mudas. E então enquanto fumava o meu charuto, estranhamente se apossaram de mim os sentimentos que Jacinto outrora experimentava no meio da Natureza, e que tanto me divertiam. Ali, à porta do café, entre a indiferença e a pressa da Cidade, também eu senti, como ele no Campo, a vaga tristeza da minha fragilidade e da minha solidão. Bem certamente estava ali como perdido num mundo que me não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se interessaria por Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse, ninguém me daria metade do seu pão. Por mais aflitamente que a minha face revelasse uma angústia, ninguém na sua pressa pararia para me consolar. De que me serviriam também as excelências da alma, que só na alma florescem? Se eu fosse um santo, aquela turba não se importaria com a minha santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no Boulevard «Ó homens, meus irmãos!», os homens, mais ferozes que o lobo de Agubio ante o Pobrezinho de Assis, ririam e passariam indiferentes. Dois impulsos únicos, correspondendo a duas funções únicas, parecia estarem vivos naquela multidão, — a do lucro, a do gozo. Isolada entre eles, e ao contágio ambiente da sua influência, em breve a minha alma se contrairia, se tornaria num duro calhau de Egoísmo. Do ser que eu trouxera da Serra, composto com tolerável nobreza, só restaria esse calhau de Egoísmo, e nele, vivos, os dois apetites de Cidade, — encher a bolsa, saciar a carne! E as mesmas exagerações de Jacinto ante a Natureza me invadiam aplicadas à Cidade. Aquele Boulevard já me ressumava um bafo mortal, exalado dos milhões dos seus micróbios. De cada porta me parecia sair um ardil para me roubar. Em cada face avistada à portinhola de um fiacre, suspeitava um bandido trabalhando; todas as mulheres me pareciam caiadas como sepulcros, tendo só por dentro podridão. E considerava de uma melancolia funambulesca cútis e formas de toda aquela Multidão, a sua pressa esperta e vã, a afectação das atitudes, as imensas plumas das chapeletas, as expressões postiças e arranjadas, a pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens obscenas das vitrinas. Ah! tudo isto era pueril, mas assim eu sentia também que necessitava remergulhar na Serra, para que o seu puro ar me secasse e se me despegasse a crosta da Cidade, e eu ressurgisse humano, e Zé Fernândico! Então, para dissipar aquele pesadume de solidão, paguei o café e parti, lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Madalena, diante da estação dos ônibus, pensei: «Que será feito de Madame Colombe?» E, oh miséria!, pelo meu miserável ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto por aquela besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e que me envolvia nas emanações subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da Rue Royale para a Praça da Concórdia, topei com um robusto e possante homem, que estacou, ergueu o braço, o vozeirão, num modo de comando: — Eh, Fernandes! O grão-duque! O belo grão-duque, de jaquetão alvadio, e chapéu tirolês cor de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do príncipe, que me reconhecera. — E Jacinto? Em Paris?… Contei Tormes, a serra, o seu rejuvenescimento entre a Natureza, minha doce prima, e os bravos pequenos, que ele trazia às cavaleiras. O grão-duque encolheu os ombros, desolado: — Oh lá, lá, lá!… Peuh! Casado, na aldeia, com filharada… Homem perdido! Ora, ora!… E um homem útil!, que nos divertia, e com gosto! O cor-de-rosa! uma festa deliciosa… Não se fez, não se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris… E então Madame d’Oriol… Ainda há dias a vi no Palácio de Gelo… Potável, mulher ainda muito potável… Não é o meu género… Adocicada, leitosa, pomadada, neve à la vanille!… Ora esse Jacinto!… — E Vossa Alteza, em Paris, com demora? O formidável homem baixou a face, franzida e confidencial: — Nenhuma. Paris já se não aguenta… Está estragada, positivamente estragada… Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gaillon, o Ernest, que era maître-d’hotel do Maire. Já lá comeu? Não? Um horror. Tudo é o Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá almocei… Um horror! Uma salada Chambord… falhada, indecentemente falhada! Não tem, não tem a noção da salada! Paris foi! Teatros, uma manada. Mulheres, penh, tudo melado. Não há nada! Ainda assim, num daqueles teatritos de Montmartre, na Roulotte, há uma revista, que se vê: «Para cá as Mulheres» — engraçada, bem despida… A Celestine tem uma cantiga, meio sentimental, meio porca, o «Amor no Water-Closet» que diverte, tem topete… Onde está, Fernandes? — No Grand-Hotel, meu senhor. — Sofrível barraca… E o seu rei sempre bom? Curvei a cabeça: — Sua Majestade, sempre bem. — Ainda bem, Fernandes, tive prazer… Esse Jacinto é que me desola! Pois vá ver a revista… Boas pernas, a Celestine… E tem graça o tal «Amor no Water-Closet». Um rijíssimo aperto de mão, — e Sua Alteza subiu pesadamente para a vitória, ainda com um aceno amável, que me penhorou… Excelente homem, este grão-duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os Campos Elísios. Em toda a sua nobre e formosa largueza, toda verde, com os castanheiros em flor, corriam, subindo, descendo, velocípedes. Parei a contemplar aquela fealdade nova, estes inumeráveis espinhaços arqueados, e gâmbias magras, pedalando escarranchados sobre duas rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente. Galfarros esguios, de gâmbias finas, fugiam numa linha esfuziada. E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes, giravam, mais rapidamente, no prazer equívoco da carreira escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas máquinas passavam, vitórias e faetontes a vapor, com uma complicação de tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando numa trepidação estridente, espalhando um grosso fedor de petróleo. Segui para o 202, pensando: «Se um grego do tempo de Fídias visse esta nova beleza e graça do caminhar humano!…» No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma alegria enternecedora. Não se fartou de saber do casamento de Jacinto, e daqueles queridos meninos. E era para ele uma felicidade que eu aparecesse, justamente quando tudo se andara limpando para a entrada da Primavera. Mas quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha solidão. Não restava em toda ela nem um dos costumados aspectos que me revivesse a velha camaradagem com o meu Príncipe. Logo na antecâmara, grandes lonas recobriam as tapeçarias heróicas — e a mesma lona parda escondia os estofos das paredes e dos móveis, as largas estantes de ébano na Biblioteca, onde os trinta mil volumes, nobremente enfileirados como doutores num concílio pareciam assim separados do Mundo, por aquele pano que sobre eles descera, depois de finda a comédia da sua força e da sua autoridade. No gabinete de Jacinto, de sobre a mesa de ébano, desaparecera aquela matula de instrumentozinhos, de que eu perdera a memória: e só a Mecânica sumptuosa, por sobre peanhas e pedestais, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens, tubos, rodas, rigidezas de metais, numa frieza morta, na inércia definitiva das coisas desusadas, como já dispostas num museu, para exemplificar a instrumentação caduca de um mundo passado. Tentei mover o telefone, que se não moveu; a mola da electricidade não acendeu nenhum lume: todas as forças universais tinham abandonado o serviço do 202, como servos despedidos. E então, passeando através das salas, realmente me pareceu que percorria um museu de antiguidades, e que mais tarde outros homens, com uma compreensão mais pura e exacta da Vida e da Felicidade, percorreriam, como eu, longas salas, atulhadas com os instrumentos da Supercivilização, e, como eu, encolhendo desdenhosamente os ombros ante a grande Ilusão que findara, agora para sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardado debaixo da lona. Quando saí do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas rolara momentos pela Avenida das Acácias, no silêncio decoroso, apenas cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o mesmo sorriso, imóveis, o mesmo pó de arroz, as mesmas pálpebras amortecidas, os mesmos olhos farejantes, na mesma imobilidade de cera! O homem do «Boulevard» passou numa vitória, fixou em mim o binóculo defumado, mas permaneceu indiferente. Os bandós negros de Madame Verghane, tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros, entre a harmonia de todo o branco que a vestia, chapéu, plumas, flores, rendas e corpete, onde o seu peito imenso se empolava como uma onda. No passeio, sob as acácias, espapado em duas cadeiras, o director do «Boulevard» mamava o resto do seu charuto. Madame de Trèves continuava o seu sorriso de há cinco anos, com duas pregazinhas mais moles aos cantos dos lábios secos. Abalei para o Grand-Hotel, bocejando, — como outrora Jacinto. E findei o meu dia de Paris, no Teatro das Variedades, estonteado com uma comédia muito fina, muito aclamada, toda faiscante do mais vivo Parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava à volta de uma Cama, onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em ceroulas, um coronel com papas de linhaça nas nádegas, cozinheiras de meias de seda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a faiscar de cio e de pilhéria. Tomei um chá melancólico no Julien, entre um áspero e lúgubre farejar de prostitutas, farejando a presa. Em duas, de pele oleosa e cobreada, olhos oblíquos, cabelos duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocação felina. Interroguei o criado, um medonho ser, de uma obesidade balofa e lívida, de eunuco. O monstro explicou numa voz roufenha e surda: — Mulheres de Madagáscar… Foram importadas logo que a França ocupou a ilha! Arrastei então por Paris dias de imenso tédio. Ao longo do Boulevard revi nas vitrinas todo o luxo, que já me enfartava havia cinco anos, sem uma graça nova, uma curta frescura de invenção. Nas livrarias, sem descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarelos, onde, de cada página que ao acaso abria, se exalava um cheiro morno de alcova, e de pós de arroz, de entre linhas trabalhadas com efeminado arrebique, como rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava, ornando e disfarçando as carnes ou as aves, o mesmo molho, de cores e sabores de pomada, que já de manhã, noutro restaurante, espelhado e dourejado, me enjoara no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preços garrafas do nosso rascante e rústico vinho de Torres, enobrecido com o título de Château Isto, Château Aquilo, e pó postiço no gargalo. À noite, nos teatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro e único fim da vida, atraindo, mais fortemente que o monturo atrai os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes de erotismo, zumbindo pilhérias senis. Esta sordidez da Planície me levou a procurar melhor aragem de espírito nas alturas da Colina, em Montmartre — e aí, no meio de uma multidão elegante de Senhoras, de Duquesas, de Generais, todo o pessoal da Cidade, recebia, do alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de gozo as orelhas cabeludas de gordos banqueiros, e arfar com delícia os corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postiços das Nobres Damas. E recolhia enjoado com tanto relento de Alcova, vagamente dispéptico com os molhos de pomada do jantar, e sobretudo descontente comigo, por me não divertir, não compreender a Cidade, e errar através dela e da sua Civilização Superior, com a reserva ridícula de um Censor, de um Catão austero. «Oh senhores!», pensava eu, «pois não me divertirei nesta deliciosa cidade?» Entrara comigo o bolor da velhice? Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual, mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, diante de certos cafés, a memória da minha Nini; e, como outrora, preguiçosamente, subi as escadas da Sorbonne. Num anfiteatro, onde sentira um grosso sussurro, um homem magro, com uma testa muito branca e muito larga, como talhada para alojar pensamentos altos e puros, ensinava, sobre as instituições da Cidade Antiga. Mas, mal eu entrara, logo o seu dizer elegante e límpido foi sufocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troça bestial, que saía da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das Escolas, Primavera sagrada, em que eu fora flor murcha. O Professor parou — espalhando em redor um olhar frio e sereno, depois remexendo as suas notas. Quando o grosso grunhido se moderou em sussurro desconfiado — ele recomeçou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e substanciais, expressas numa língua pura e forte — mas, imediatamente, rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de galo, por entre magras mãos, que se estendiam para estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola de um macfarlane de xadrez, contemplava o tumulto com melancolia, pingando endefluxado. Perguntei ao velho: — Que querem eles? É embirração com o professor… Política? O velho abanou a cabeça, espirrando: — Não… É sempre assim, agora, em todos os cursos… Não querem ideias… Creio que queriam cançonetas, porcarias. Amor da troça. Então, indignado, berrei: — Silêncio, brutos! E eis que um abortozinho, amarelado e sebento, de longas melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me grita: — Sale maure! Ergui o meu tremendo punho serrano, — e o desgraçado, numa confusão de melenas, com sangue por toda a face, aluiu, como um montão de trapos moles, ganindo desesperadamente, — enquanto o furacão de uivos e cacarejos, e guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzara os braços, esperando, com uma serenidade simples. Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade — e o único dia alegre e divertido que nela passei, foi o derradeiro, comprando para os meus queridinhos de Tormes brinquedos consideráveis, tremendamente complicados pela Civilização, — vapores de aço e cobre, providos de caldeiras para viajar em tanques; leões de pele verídica rugindo pavorosamente; bonecas vestidas pela Laferrière, com fonógrafos no ventre… E enfim abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o Boulevard, um adeus à Cidade: — Pois adeuzinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas. E o que tens de bom, que é o teu génio, elegante e claro, lá o receberei na Serra pelo correio! Enfim numa tarde de domingo, debruçado da janela do comboio, que vagarosamente deslizava pela borda do rio lento, num silêncio todo feito de azul e sol, avistei na plataforma da quieta estação, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Teresa, muito vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacintinho, que empunhava na mão uma bandeira branca. O alvoroço ditoso com que abracei e beijei aquela tribo bem-amada conviria perfeitamente a quem voltasse vivo de uma guerra distante, na Tartária. Na alegria de recuperar a Serra, até beijoquei o Pimentinha, que a estalar de obesidade se açodava gritando ao carregador com o cuidado das minhas malas. Jacinto, magnífico, de grande chapéu serrano, jaqueta, e polainas altas, de novo me abraçou: — E esse Paris? — Medonho! De novo abri os braços para o bravo Jacintinho. — Então para que é essa bandeira, meu cavaleiro? — Do castelo! — declarou ele com uma bela seriedade nos seus grandes olhos. A mãe ria. Desde essa manhã, logo que soubera da chegada do Ti-Zé, apareceu de bandeira, feita pelo Grilo, e não a largara, com ela almoçara, com ela descera de Tormes! — Bravo! E, oh prima Joaninha, olhe que está magnífica! Eu, também, venho daquelas peles meladas de Paris… Mas acho-a triunfal! E o tio Adrião, e a tia Vicência? — Tudo óptimo! — gritou Jacinto. — A serra, Deus louvado, prospera. E agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilização. No pátio debaixo da figueira, que revi com gosto, esperavam os três cavalos, e dois belos burros brancos, um com cadeirinha, para a Teresa, outro com um cesto de verga, para meter dentro o heróico Jacintinho, ambos levados à rédea por dois criados. E ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador apareceu com um maço de jornais e papéis, que eu esquecera na carruagem. Era uma papelada, de que eu me sortira na estação de Orléans, toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo: — Deita isso fora! E eu atirei para um montão de lixo, ao canto do pátio, aquela podridão da ligeira Civilização. E montei. Mas, já ao dobrar para o caminho empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, que eu esquecera. O digno chefe, debruçado sobre o monturo de lixo, apanhava, sacudia, recolhia com amor aquelas belas estampas, que chegavam de Paris, contavam as delícias de Paris, derramavam através do mundo a sedução de Paris. Em fila começámos a subir para a serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes de flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Janelas distantes de casas amáveis flamejavam com um fulgor de ouro. A serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, dentro do seu cesto, com a haste bem agarrada na mão. Era a bandeira do castelo, afirmava ele muito sério. E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através da Natureza campestre e mansa, — o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu, — tão longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, serenamente e seguramente subíamos — para o Castelo da Grã-Ventura! FIM

1. aug. 202142 min
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"A Cidade e as Serras", Capítulo XIV, de Eça de Queirós

Capítulo XIV, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. TRANSCRIÇÃO — XIV Ao outro dia, depois do almoço, eu e Jacinto montámos a cavalo para um grande passeio até à Flor da Malva, a saber de meu tio Adrião, e do seu furúnculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de testemunhar a impressão que daria ao meu Príncipe aquela nossa prima Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. Já nessa manhã, andando todos no jardim a escolher uma bela rosa chá para a botoeira do meu Príncipe, a tia Vicência celebrara com tanto fervor a beleza, a graça, a caridade e a doçura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei: — Oh! tia Vicência, olhe que esses elogios todos competem apenas à Virgem Maria! A tia Vicência está a cair em pecado de idolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo! E agora, trotando pela fácil estrada de Sandofim, lembrava aquela manhã, no 202, em que Jacinto encontrara o retrato dela, no meu quarto, e lhe chamara uma lavradeirona. Com efeito, era grande e forte a Joaninha. Mas a fotografia datava do seu tempo de viço rústico, quando ela era apenas uma bela, forte e sã planta da serra. Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e sentia, — e a alma que nela se formara, afinara, amaciara, e espiritualizava o seu esplendor rubicundo. A manhã, com o céu todo purificado pela trovoada da véspera, e as terras reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, oferecia uma doçura luminosa, fina, fresca, em que era doce, como diz o velho Eurípides ou o velho Sófocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, sem pressa ou cuidados. A estrada não tinha sombras, mas o sol descia muito de leve, e roçava com uma carícia quase alada. O vale por baixo parecia a Jacinto (que nunca ali passara) uma pintura da Escola Francesa do século XVIII, tão graciosamente nele ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e frescura corria o risonho Serpão, e tão afáveis e prometedores de fartura e contentamento alvejavam os casais nas verduras ligeiras. Os nossos cavalos caminhavam num passo pensativo, gozando também a paz da manhã adorável. E não sei que plantazinhas silvestres e escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira, naquele caminho, ao começar o Outono. — Que delicioso dia! — murmurou Jacinto. — Este caminho para a Flor da Malva é o caminho do Céu… Oh Zé Fernandes, de que é este cheirinho tão doce, tão bom… Eu sorri, com certo pensamento: — Não sei… É talvez já o cheiro do Céu! Depois, parando o cavalo, apontei com o chicote para o vale: — Olha, acolá, onde está aquela fila de olmos, e há o riacho, já são terras do tio Adrião. Tem ali um pomar, que dá os pêssegos mais deliciosos de Portugal… Hei-de pedir à prima Joaninha que te mande um cesto de pêssegos. E o doce que ela faz com esses pêssegos, menino, é alguma coisa de extraceleste. Também lhe hei-de pedir que te mande o doce. Ele ria: — Será explorar de mais a prima Joaninha. E eu (porquê?) recordei e atirei ao meu Príncipe estes dois versos de uma balada cavalheiresca, composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procópio: Manda-lhe um servo dizendo: «Bem hajas dona formosa!» E que lhe entregue um anel E com um anel uma rosa. Jacinto riu alegremente: — Oh! Zé Fernandes, seria excessivo, logo, por causa de meia dúzia de pêssegos, e de um boião de doce. Assim ríamos, quando apareceu, à volta da estrada, o longo muro da quinta dos Velosos, e depois a capelinha de S. José de Sandofim. E imediatamente piquei para o largo, para a taverna do Torto, por causa daquele vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha alma me pede. O meu Príncipe reprovou, indignado: — Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois do almoço, vais beber vinho branco? — É um costumezinho antigo… Aqui à taverninha do Torto… Um decilitrinho… A almazinha assim mo pede. E parámos, eu gritei pelo Manuel, que apareceu, rebolando na sua grossa pança, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo. — Dois copos, Torto amigo. Que aqui este cavalheiro também aprecia. Depois de um pálido protesto, o meu Príncipe também tomou o seu copo, mirou o límpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvaziou o seu copo, com delícia, e um estalinho de alto apreço. — Delicioso vinho!… Hei-de querer deste vinho em Tormes… É perfeito. — Hem? Fresquinho, leve, aromático, alegrador, todo alma!… Encha lá outra vez os copos, Torto amigo. Este cavalheiro aqui é o sr. D. Jacinto, o fidalgo de Tormes. Então, de trás da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente, solenemente: — Bendito seja o Pai dos Pobres! E um estranho velho, de longos cabelos brancos, barbas brancas, que lhe comiam a face cor de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um bordão, com uma caixa a tiracolo, e cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o profeta da serra… Logo lhe estendi a mão, que ele apertou, sem despegar de Jacinto os olhos, que se dilatavam mais negros. E mandei vir outro copo, apresentei Jacinto, que corara, embaraçado. — Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por aí todo esse bem à pobreza. O velho atirou para ele bruscamente o braço, que saía, cabeludo e quase negro, de uma manga muito curta. — A mão! E quando Jacinto lha deu, depois de arrancar vivamente a luva, João Torrado longamente lha reteve com um sacudir lento e pensativo, murmurando: — Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara! Depois tomou o copo, que lhe oferecia o Torto, bebeu com imensa lentidão, limpou as barbas, deu um jeito à correia que lhe prendia a caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no chão: — Pois louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, que por aqui me trouxe, que não perdi o meu dia, e vi um homem! Eu então debrucei a face para ele, mais em confidência: — Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por aí, pelos sítios, que el-rei D. Sebastião voltara? O pitoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo de espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como seguindo a procissão dos seus pensamentos: — Talvez voltasse, talvez não voltasse… Não se sabe quem vai, nem quem vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão dentro. Há corpos de agora com almas de outrora. Corpo é vestido, alma é pessoa… Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros… Em ruim corpo se esconde bom senhor! E como ele findara num murmúrio, eu, atirando um olhar a Jacinto, para gozarmos aqueles estranhos, pitorescos modos de vidente, insisti: — Mas, ó tio João, você realmente, em sua consciência, pensa que el-rei D. Sebastião não morreu na batalha? O velho ergueu para mim a face, que se enrugara numa desconfiança: — Essas coisas são muito antigas. E não calham bem aqui à porta do Torto. O vinho era bom, e Vossa Senhoria tem pressa, meu menino! A flor da Flor da Malva lá tem o paizinho doente… Mas o mal já vai pela serra abaixo com a inchação às costas. Dá gosto ver quem dá gosto aos tristes. Por cima de Tormes há uma estrela clara. E é trotar, trotar, que o dia está lindo! Com a magra mão lançou um gesto para que seguíssemos. E já passávamos o cruzeiro, quando o seu brado ardente de novo ressoou, com cava solenidade: — Bendito seja o Pai dos Pobres! Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as aclamações de um povo. E Jacinto pasmava de que ainda houvesse no reino um sebastianista. — Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto amigo! Na Serra ou na Cidade cada um espera o seu D. Sebastião. Até a lotaria da Misericórdia é uma forma de sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro, espreito, a ver se chega o meu. Ou antes a minha, porque eu espero uma D. Sebastiana… E tu, felizardo? — Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes… Sou o último Jacinto, Jacinto ponto final… Que casa é aquela com os dois torreões? — A Flor da Malva. Jacinto tirou o relógio: — São três horas. Gastámos hora e meia… Mas foi um belo passeio, e instrutivo. É lindo este sítio. Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro cerrava, e dominando, a Flor da Malva voltava para oriente e para o Sol a sua longa fachada com os dois torreões quadrados, onde as janelas, de varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande portão de ferro, ladeado por dois bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um imenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as suas fortes raízes um pequeno esperava segurando um burro pela arreata. — Está por aí o Manuel da Porta? — Ainda agora subiu pela alameda. — Bem, empurra lá o portão. E subimos, por uma curta avenida de velhas árvores, até outro terreiro, com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta de heras, e uma casota de cão, donde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o «Tritão», que eu logo sosseguei, reconhecendo o seu velho amigo Zé Fernandes. E o Manuel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande balde, para segurar os nossos cavalos. — Como está o tio Adrião? Surdo, o excelente Manuel sorriu, deleitado: — E então Vossa Excelência, bem? A sr.ª D. Joaninha ainda agora andava no laranjal com o pequeno da Josefa. Seguimos por ruazinhas bem areadas, orladas de alfazema e buxo alto, enquanto eu contava ao meu Príncipe que aquele pequenito da Josefa era um afilhadinho da prima Joana, e agora o seu encanto e o seu cuidado. — Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem aí pela freguesia uma verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a encontro sem uma criancinha ao colo… Agora anda na paixão deste Josezinho. Mas quando chegámos ao laranjal, à beira da larga rua da quinta que levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei: — Eh, prima Joaninha!… — Talvez esteja lá para baixo, para o tanque… Descemos a rua, ladeada de velhas árvores, que a cobriam com as densas ramas cruzadas. Uma fresca, límpida água de rega corria e luzia num caneiro de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura de Verão. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com uma doçura, toda amarelo e branco, dos malmequeres e botões-de-ouro. O tanque, redondo, fora esvaziado para se lavar, e agora de novo o repuxo o ia enchendo de uma água muito clara, ainda baixa, onde os peixes vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano. Sobre um dos bancos de pedra que circundavam o tanque, pousava um cesto cheio de dálias cortadas. E um moço, que sobre uma escada podava as camélias, vira a sr.ª D. Joana seguir para o lado da parreira. Marchámos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas mulheres, longe, ensaboavam num lavadouro, na sombra de grandes faias. Gritei: — Eh lá? Vocês viram por aqui a sr.ª D. Joana? — Uma das moças esganiçou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce. — Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a tarde. — É uma bela quinta — murmurava o meu Príncipe, encantado. — Magnífica! E bem tratada… O tio Adrião tem um feitor excelente… Não é lá o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquele cebolinho! Passámos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhara o meu Príncipe, com os seus talhões debruados de alfazema, e madressilva enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruazinhas frescas toldadas de parra densa. E demos volta à capela, onde crescia aos dois lados da porta uma roseira chá, com uma rosa única, muito aberta, e uma moita de baunilha, onde Jacinto apanhou um raminho para cheirar. Depois entrámos no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda enrodilhada de jasmineiros amarelos. A porta envidraçada estava aberta: e subimos pela escadaria de pedra, no imenso silêncio em que toda a Flor da Malva repousava, até à antecâmara, de altos tectos apainelados, com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta de uma outra sala, que tinha as janelas da varanda abertas, cada uma com a gaiola de um canário. — É curioso! — exclamou Jacinto. — Parece o meu Presépio… E as minhas cadeiras. E com efeito. Sobre uma cómoda antiga, com bronzes antigos, pousava um Presépio, semelhante ao da livraria de Jacinto. E as cadeiras de couro lavrado tinham, como as que ele descobrira no sótão, umas armas sob um chapéu de cardeal. — Oh senhores! — exclamei. — Não haverá um criado? Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silêncio permaneceu, muito largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado pelo saltitar dos canários nos poleiros das gaiolas. — É o Palácio da Bela no Bosque Adormecida! — murmurava Jacinto, quase indignado. — Dá um berro! — Não, caramba! Vou lá dentro! Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha, corada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado dos seus belos cabelos, — lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos, luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azuis. E foi assim que Jacinto, nessa tarde de Setembro, na Flor da Malva, viu aquela com quem casou, em Maio, na capelinha de azulejos, quando o grande pé de roseira se cobrira já de rosas.

1. juli 202118 min
episode "A Cidade e as Serras", Capítulo XIII, de Eça de Queirós cover

"A Cidade e as Serras", Capítulo XIII, de Eça de Queirós

Capítulo XIII, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. TRANSCRIÇÃO — XIII Ai de mim! Não se passou com brilho, nem com alegria! Quando o meu Príncipe entrou na sala, com uma elegância onde eu senti as malas de Paris (abertas na véspera) — uma rosa branca no jaquetão preto, colete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de seda branca, tufando e presa por uma pérola negra —, já todos os convidados enchiam a sala, — o D. Teotónio, o Ricardo Veloso, o dr. Alípio, o gordo Melo Rebelo, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da Quinta da Loja; todos se conservavam de pé, num magote cerrado. Em torno do sofá onde a tia Vicência se instalara, um magotezinho de cadeiras reunira as senhoras, a Beatriz Veloso, com cassa branca sobre seda, que a tornava mais aérea e magra, com uma imensa trunfa de cabelo riçado, e as duas Rojões (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como rosinhas, ambas de branco, a mulher do dr. Alípio, de preto, esplêndida como uma Vénus rústica… E foi na sala, como se realmente entrasse um príncipe, desses países do Norte onde os príncipes são magníficos, muito distantes dos homens, e aterram. Um silêncio, como se o tecto de carvalho descesse, nos esmagasse: e todos os olhos se enristaram contra o meu desgraçado Jacinto, como numa caçada hindu, quando à orla da floresta surge o tigre real. Debalde, nas confusas, apressadas apresentações, com que eu o levava através da sala, — os seus apertos de mão, e sorrisos, o vago murmúrio, «da sua honra, do seu prazer», foram repassados de simpatia, de simplicidade. Todos os cavalheiros permaneciam reservados, observando o Príncipe que subira à Serra: e as senhoras mais se conchegavam à sombra da tia Vicência, como ovelhas à volta do pastor, quando na altura surge o lobo. Eu então, já inquieto, lancei o D. Teotónio, o mais ornamental daqueles cavalheiros. — O sr. D. Teotónio foi muito amável em vir, Jacinto. Raras vezes sai da sua linda casa da Abrujeira. O Digno sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho brigadeiro: — Vossa Excelência chegou directamente de Viena? Não! Jacinto viera directamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D. Teotónio insistiu: — Mas certamente visita muitas vezes Viena… Jacinto sorria surpreendido: — Viena, porquê?… Não. Há mais de quinze anos que não vou a Viena. O fidalgo murmurou um lento «Ah!» e ficou calado, de pálpebras baixas, como revolvendo análises profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca azul. Eu então, que vigiava, lancei o dr. Alípio: — O nosso doutor, meu caro Jacinto, é o mais poderoso influente de todo o distrito. O doutor curvou a cabeça bem feita, com um belo cabelo preto, admiravelmente alisado e lustroso — a tia Vicência, que se erguera do sofá, chamava o meu Príncipe, porque o Manuel anunciara o jantar, mudamente, mostrando apenas, à porta da sala, a sua corpulenta pessoa, muito tesa e muito vermelha. À mesa (onde os pudins, as travessas de doces de ovos, os antigos vinhos de Madeira e Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal, fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes), Jacinto ficou entre a tia Vicência e uma das Rojões, a Luisinha, sua afilhada, que, por costume velho quando jantava em Guiães, sempre se colocava à sombra da sua boa madrinha; — e a sopa, que era de galinha com macarrão e arroz, foi comida num tão largo, pesado silêncio que eu, na ânsia de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães, à minha mesa: — Está deliciosa, esta sopa! Jacinto ecoou: — Divina! Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e o pasmo excessivo de Jacinto, o silêncio, carregado de estranheza, mais se carregou de embaraço. Felizmente, a tia Vicência, com aquele seu bom sorriso, observou que Jacinto parecia gostar das nossas comidas portuguesas… E eu, sempre no intuito de animar, nem deixei que o meu Príncipe confirmasse o seu amor da cozinha vernácula, gritei: — Como gosta? Mas é que delira! Pudera! Tanto tempo em Paris, privado!… E como, ditosamente, me lembrara o prato de arroz-doce preparado no natalício de Jacinto, pelo cozinheiro do 202, contei logo a história, profusamente, exagerando, afirmando que o arroz-doce continha foie gras, e que sobre a sua ornamentada pirâmide flutuava a bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz-doce, assim estragado, tão longe da serra, não interessava, apenas puxou alguns sorrisos de polida condescendência, quando eu, alternadamente, me voltei para um cavalheiro, para uma senhora, insistindo, exclamando: — Extraordinário, hem? — D. Teotónio observou, misteriosamente, que «o cozinheiro sabia para quem cozinhava». E a bela mulher do dr. Alípio ousou murmurar, corando: — Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau! Eu então logo (ai de mim, para animar) ataquei com desabrida alegria a sr.ª D. Luísa, por ela assim defender a profanação do nosso grande prato nacional! Mas, ai de mim, tão excessiva e ruidosamente interpelei a formosa senhora, que ela se enconchou, emudeceu, toda corada, e mais formosa. E outro silêncio se abatia sobre a mesa, como uma névoa, quando a tia Vicência, providencial, se desculpou para com Jacinto de não ter peixe! Mas quê!, ali na serra era impossível, mesmo a peso de ouro, ter peixe, a não ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excelente Rojão, então, com aquele seu modo, tão suave, que cada sílaba para correr mais docemente parecia lubrificada com óleos santos, lembrou que o sr. D. Jacinto possuía uma larga faixa do Douro, com privilégio para a pesca do sável. Jacinto não sabia, nem imaginava que houvesse sáveis… O dr. Alípio não se admirava porque essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, há vinte anos, na mocidade do sr. D. Jacinto. E hoje, segundo D. Teotónio, não valiam dois mil réis. Se já não há sáveis!… E em torno destes sáveis, se iam formando, em torno da mesa, entre os cavalheiros mais vizinhos, lentas cavaqueirinhas rurais — que as senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo daquele silêncio cerimonioso, que viera pesando até aos frangos guisados. Eu então, receoso que essa orla de murmúrios lentos, sem brilho e alegria, se perpetuasse de novo, lancei-me (para animar) interpelando Jacinto, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmácia encalhado. — Isso foi uma das melhores histórias que nos sucedeu em Paris! O Jacinto, por causa de um peixe muito raro, que lhe mandara o grão-duque Casimiro, dava uma magnífica ceia, a que o grão-duque… o grão-duque Casimiro, o irmão do Imperador… Todos os olhos se desviaram para o meu Jacinto, que se servia de ervilhas: — e o Melo Rebelo quase se engasgou, num sorvo precipitado ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do grão-duque. E eu contei, com profusão, o peixe encalhado, o grão-duque pescando, o anzol feito com um gancho de princesa de Carman, o duque de Marizac, caindo quase no poço do elevador… Mas não se produziu um riso, e a atenção mesmo era dada com esforço, por cortesia. Debalde eu arremessava aqueles nomes magníficos de grão-duques e princesas, misturados a coisas picarescas… Nenhum dos meus convidados compreendia o elevador, um prato encalhado num poço negro… Perante o gancho da princesa, as Albergarias baixaram os olhos. E a minha deliciosa história morreu numa reticência, ainda mais regelada pela exclamação da tia Vicência: — Oh! filho, que coisas! Mas como Jacinto se enfronhara de repente numa larga conversa com a Luisinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora, — todos, logo, como libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas cavaqueirinhas discretas, a que agora o champanhe, depois do assado, dava mais vivacidade. Era a orla de murmúrios, em torno da mesa, com relevo e sem bulhas, que retomava, se estabelecia. E eu então desisti de animar o jantar. Mergulhei com a bela mulher do doutor na grande questão social desse tempo em Guiães, o casamento da D. Amélia Noronha com o feitor! E eu defendia a D. Amélia, os direitos do amor, quando se alargou um silêncio, — e era Jacinto, que se debruçava, de copo na mão. — Velho amigo Zé Fernandes, à tua! Muitos e bons, e sempre em companhia de tua e minha senhora, a quem peço para saudar. Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champanhe, se ergueram num largo rumor de amizade, e boa vizinhança. Eu acenei ao Manuel, vivamente, para encher os copos, e logo também de pé, atirando para trás a aba da sobrecasaca: — Meus senhores, peço uma grande saúde para o meu velho amigo Jacinto, que pela primeira vez honra esta casa fraternal!… Que digo eu? Que pela primeira vez honra com a sua presença a sua pátria! E que por cá fique, pelas serras, muitos anos todos bons. À tua, meu velho! Outro rumor correu pela mesa, mas cerimonioso e sereno. A tia Vicência tilintou o seu copo, quase vazio, no de Jacinto, que tocou no copo da sua vizinha, a Luisinha Rojão, toda resplandecente, e mais vermelha que uma peónia. Depois foi o encadeamento de saúdes, entremisturadas, com os copos quase vazios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adrião, e o abade, ambos ausentes, ambos com furúnculos. E a tia Vicência espalhava aquele olhar que prepara o erguer, o arrastar de cadeiras, — quando D. Teotónio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, com a outra mão apoiada à mesa, meio erguido, chamou Jacinto, e numa voz respeitosa, quase cava: — Esta é toda particular, e entre nós… Ao ausente! Esvaziou o copo, como religião, como pontificando. Jacinto bebeu assombrado, sem compreender. As cadeiras arrastavam, — eu dei o braço à tia Albergaria. E só compreendi, na sala, quando o dr. Alípio, com a sua chávena de café e o charuto fumegante, me disse, num daqueles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de «Dr. Agudo»: — Espero que ao menos, cá por Guiães, não se erga de novo a forca!… — E o mesmo fino olhar me indicava o D. Teotónio, que arrastara Jacinto para entre as cortinas de uma janela, e discorria, com um ar de fé e de mistério. Era o miguelismo, por Deus! O bom D. Teotónio considerava Jacinto como um hereditário, ferrenho miguelista, — e na sua inesperada vinda ao seu solar de Tormes entrevia uma missão política, o começo de uma propaganda enérgica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na reserva daqueles cavalheiros, ante o meu Príncipe, eu senti então a suspeita liberal, o receio de uma influência rica, nova, nas eleições, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas naquele moço, tão rico, de civilização tão superior. Quase entornei o café, na alegre surpresa daquela sandice. E retive o Melo Rebelo, que repunha a chávena vazia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o «Dr. Agudo». — Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes trabalhar no miguelismo? Muito sério, Melo Rebelo chegou o seu grosso bigode à minha orelha: — Até corre, como certo, que o príncipe D. Miguel está com ele em Tormes! E como eu os considerava esgazeado, o dr. Alípio, tão agudo, confirmou: — É o que corre… Disfarçado em criado! Em criado? Oh! Santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Veloso veio, puxando do seu cigarrinho, para o acender no meu charuto. E o bom Rebelo logo invocou o seu testemunho. Pois não corria que o filho de D. Miguel estava em Tormes, escondido?… — Disfarçado em lacaio — confirmou logo o digno Rebelo. Acendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas meditativas: — Se assim é, lá me parece desplante… Que eu não desgostava de o ver. Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas enfim, meu tio João Vaz Rebelo foi partido às postas, a machado, nas prisões de Almeida… E se recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo… Emudeceu. Jacinto, que se libertara do velho D. Teotónio, e ainda conservava um resto de riso, de assombro divertido, vinha para mim, desabafar. — Extraordinário! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma ruga, as velhas e boas ideias… Imediatamente, sem se conter, Melo Rebelo acudiu: — É segundo o que Vossa Excelência chama boas ideias. E eu agora, furioso com aquela disparatada invenção, que cercava de hostilidade o meu pobre Jacinto, estragava aquela amável noite de anos, intervim, vivamente: — Tu jogas o voltarete, Jacinto? Não… Então vamos arranjar duas mesas… O D. Teotónio há-de querer cartas. E arrastei Jacinto para as senhoras, que de novo se aninhavam à sombra da tia Vicência, estabelecida no seu canto do sofá. Todas se calaram, se pareciam encolher ante a aparição do meu Príncipe, como pombas avistando o abutre. E deixei o temido homem afirmando à mulher do dr. Alípio (um pouco desgarrada do bando das aves tímidas) que tivera um grande prazer naquela ocasião de conhecer as suas vizinhas de Tormes… Ela abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca decerto Jacinto admirara na cidade, em boca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas depois de organizar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir o Manuel Albergaria, que era dispéptico, se declarara «afrontado», e desejava respirar um bocado na varanda. Todos aqueles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor, — e mandei abrir as janelas que davam sobre as mimosas do pátio. O Veloso, mesmo ao baralhar, parara, bufando, como oprimido: — Está abafado… Ainda temos trovoada! E o dr. Alípio, inquieto, porque tinha uma hora de estrada até casa, e uma das éguas da caleche era escabreada, correu à janela, espreitar o céu, que enegrecera, morno e pesado. — Com efeito, vai cair água. A ramagem das mimosas farfalhava arrepiada: e o ar que agitava molemente as cortinas era morno e pesado. Decerto na sala, entre as senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria apareceu, avisando o mano Jorge. Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava… E o dr. Alípio, puxando o relógio, propôs que, findo aquele roque, se preparasse a jornada. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desafrontado, aliviado com um cálice de genebra: e retomou as suas cartas, anunciando também que vinha aí uma trovoada valente. Voltando à sala, encontrei Jacinto muito alegre entre as senhoras, que se familiarizavam, escutando, cheias de riso e gosto, a história da sua chegada a Tormes, sem malas, sem criados, tão desprovido que dormira com a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite de anos findava, desorganizada. A tia Albergaria rondava de janela em janela, assustada com a volta à Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calçando lentamente as luvas, a bela mulher do dr. Alípio perguntava se o roque não findara. E a tia Vicência apressara o chá, que o Manuel, seguido pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir às senhoras. Jacinto, de pé, oferecendo chávenas, gracejava: — Então tanta pressa, tanto medo, por causa de uma trovoadinha? Elas replicavam, familiarizadas, numa crescente simpatia pelo meu Príncipe: — Ora o senhor fala bem, porque fica debaixo de telhas… — Sempre o queríamos ver… com esta noite cerrada! Que fosse agora para Tormes. O voltarete findara nas duas mesas: e aqueles cavalheiros, das janelas, gritavam as ordens para o pátio negro, onde as traquitanas esperavam atreladas: — Desce a cabeça da vitória, ó Diogo! — Acende o lampião, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas. A Vicência, criada, chegava à porta com os braços carregados de xales, de mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de diante, da vitória, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ela se abrigar, se a chuva viesse. E só o D. Teotónio, que tinha até casa meia légua de estrada boa, se não apressava, de novo filado no meu Príncipe, que levava para os lados mais solitários, em conversas profundas, que o seu dedo solene, espetado, sublinhava gravemente. Mas a tia Albergaria gritou que já chovia; — e então foi uma pressa das senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicência, enquanto os homens, na antecâmara, enfiavam açodadamente os paletós. Jacinto e eu descemos ao pátio para acompanhar aquela debandada, — e uma a uma, a traquitana do dr. Alípio, a vitória das Albergarias, a velha e imensa caleche dos Velosos, rolaram sob a noite, entre os nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Teotónio calçou as luvas pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacinto: — Pois, primo e amigo, Deus permita que do nosso encontro, e do mais que se passar, algum bem resulte a esta terra! Subindo a escada, o meu Príncipe desabafou: — Este Teotónio é extraordinário! Sabes o que descobri por fim?… Que me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a restauração de D. Miguel?! — E tu? — Eu fiquei tão espantado, que nem o desiludi! — Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão desconfiados, e receiam ver de novo erguidas as forcas em Guiães! E corre que tu tens o príncipe D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado em criado. E sabes quem ele é? O Baptista! — Isso é sublime! — murmurou Jacinto, com uns grandes olhos abertos. Na sala, a tia Vicência ainda nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, que ardiam no silêncio e paz do serão debandado: — Ora uma coisa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de geleia, um cálice de vinho do Porto! — Esteve tudo muito desanimado, tia Vicência! — exclamei desafogando o meu tédio. — Todo esse mulherio emudeceu, os amigos com um ar desconfiado… Jacinto protestou, muito divertido, muito sincero: — Não! Pelo contrário. Gostei imenso. Excelente gente! E tão simples… Todas estas raparigas me pareceram óptimas. E tão frescas, tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que eu não sou miguelista. Então contámos à tia Vicência a prodigiosa história de D. Miguel escondido em Tormes… Ela ria! Que coisas! E mau seria… — Mas o sr. Jacinto, não é? — Eu, minha senhora, sou socialista… Acudi, explicando à tia Vicência que socialista era ser pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro: — O meu Afonso, que Deus haja, era liberal… Meu pai também, e até amigo do duque da Terceira… Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra: — e uma bátega de água cantou nos vidros, e pedras da varanda. — Santa Bárbara! — gritou a tia Vicência. — Ai aquela pobre gente!… Até estou com cuidado… As Rojões, que vão na vitória! E correu para o quarto, na sua pressa de acender as duas velas costumadas no oratório, mesmo antes de ir guardar as pratas, e rezar depois o terço, com a Gertrudes.

11. juni 202124 min
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"A Cidade e as Serras", Capítulo XII, de Eça de Queirós

Capítulo XII, em audiolivro, do romance “A Cidade e as Serras” de Eça de Queirós. Apoiem-nos no Patreon (https://www.patreon.com/neolivros) “A Cidade e as Serras” é um desenvolvimento do conto “Civilização”, cuja publicação em livro ocorreu em 1901, já depois da morte do autor. No romance é relatada a história de Jacinto, tendo como narrador José Fernandes, um amigo fraternal. Jacinto nasceu e viveu toda a sua vida num palácio dos Campos Elísios, em Paris. Apesar de rodeado de conhecimento, de tecnologia e de luxo, vive aborrecido e decide regressar a Tormes, na região do Douro. TRANSCRIÇÃO — XII Assim chegou Setembro, e com ele o meu natalício, que era a 3 e num domingo. Toda essa semana a passara eu em Guiães, nos preparos da vindima, — e logo cedo, nesse domingo ilustre, me fui debruçar da varanda do quarto do saudoso tio Afonso, vigiando a estrada, por onde devia aparecer o meu Príncipe, que enfim visitava a casa do seu Zé Fernandes. A tia Vicência, essa, desde madrugada, andava atarefada pela cozinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Príncipe «o pessoal» da serra, convidara para jantar algumas famílias amigas, dos arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e que podiam, pelas estradas mais seguras, recolher tarde, depois de um bailarico campestre, no pátio, já enfeitado para esse efeito de lanternas chinesas. Mas logo às dez horas me desesperei, ao receber, por um moço da Flor da Malva, uma carta da prima Joaninha, em que dizia «a pena de não poder vir porque o Papá estava desde a véspera com um leicenço, e ela não o queria abandonar». Corri indignado à cozinha, onde a tia Vicência presidia a um violento bater de gemas de ovos dentro de uma imensa terrina. — A Joaninha não vem! Sempre assim! Diz que o pai tem um leicenço… Aquele tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para ter leicenços, ou para ter a pontada… A boa face redondinha e corada da tia Vicência enterneceu-se. — Coitado! Será em sítio que não se pudesse sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrozinho de folhas de alecrim. É com que teu tio se dava bem. Eu gritei simplesmente da janela para o moço, que dava de beber ao burro no pátio: — Diz à sr.ª D. Joaninha que sentimos muito… Que talvez eu lá apareça amanhã. E voltei à janela, impaciente, porque o relógio do corredor, muito atrasado, já cantara a meia hora depois das dez e o Príncipe tardava para o almoço. Mas, mal eu me chegara à varanda, apareceu justamente na volta da estrada Jacinto, de grande chapéu de palha, na sua égua, seguido do Grilo, que se escarranchava, sobre o albardão da velha égua do Melchior, também de chapéu de palha, e abrigado sob um imenso guarda-sol verde. Atrás, um moço com uma maleta à cabeça. E eu, na alegria de avistar enfim o meu Príncipe trotando para a minha casa de aldeia, no dia dos meus trinta e seis anos, pensava noutro natalício, no dele, em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilização, nós bebemos tristemente ad manes, aos nossos mortos! — Salve! — gritei da varanda. — Salve, domine Jacinthe! E entoei, para o acolher, num alegre tarantantan, o «Hino da Carta»! — Isto por aqui também é lindo! — gritou ele de baixo. — E o teu palácio tem um soberbo ar… Por onde é a porta? Mas eu já me precipitava para o pátio — onde Jacinto, apeando, contou alegremente os tormentos do Grilo, que nunca montara a cavalo, e não cessara de berrar ante os perigos daquela aventura. E o digno preto, ofegante, lustroso de suor, e lívido sob o esplendor da sua negrura, exclamava, apontando com a mão trémula para a pobre égua, que solta, de cabeça pensativa, parecia de pedra, sobre as patas mais imóveis que marcos: — Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veio quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me sacudir! Só para me sacudir! E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa contra a égua, sobre o albardão. Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua janela ao fundo engrinaldada de roseirinhas, Jacinto louvava grandemente a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas feudais de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternais da tia Vicência, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a cómoda, e adornara a cama com uma das nossas colchas da Índia mais ricas, cor de canário, com grandes aves de ouro. Eu sorria, enternecido. Então estreitámos os ossos num grande abraço, pelo natalício… «Trinta e oito, hem, Zé Fernandes?» — «Trinta e quatro, animal!» E o meu Príncipeabrindo logo a mala, sóbria maleta de filósofo, ofereceu os «nobres presentes, que são devidos», como diz sempre o astuto Ulisses na «Odisseia». Era um alfinete de gravata, de safira, uma cigarreira de aço fosco, com um florido ramo de macieira em delicado esmalte, uma faca para livros de velho lavor chinês. Eu protestava contra a prodigalidade. — É tudo das malas de Paris… Mandei-as abrir ontem à noite. E tomei a liberdade de trazer esta lembrança à tua tia Vicência. Não vale nada… É só por ter pertencido à princesa de Lamballe. Era uma caldeirinha de água benta, em prata lavrada, de um gosto florido e quase galante. — A tia Vicência não sabe quem é a princesa de Lamballe, mas fica encantada! E é uma garantia, porque ela suspeita da tua religião, como homem de Paris, da terra das impiedades… E agora, lavar, escovar, e almoçar! A tia Vicência pareceu toda surpreendida, e logo encantada com o meu camarada, que ela supusera realmente um príncipe, arrogante, escarpado e difícil. Quando ele lhe ofereceu a caldeirinha, com um delicado pedido «para se lembrar dele nas suas orações», duas largas rosas, mais róseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces redondas da boa senhora, que nunca recebera tão piedoso presente, com tão linda expressão. Mas o que sobretudo a cativou foi o tremendo apetite de Jacinto, a entusiasmada convicção com que ele, amontoando no prato montes de cabidela, depois altas serras de arroz de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cozinha, jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ela resplandecia: — Até faz gosto, até faz gosto… Ora mais uma destas batatinhas recheadas… — Com certeza, minha senhora, até duas! As minhas rações, em mesas destas, tão perfeitas, são sempre as de Gargântua. — Não cites Rabelais, que a tia Vicência não conhece os autores profanos! — exclamava eu, também radiante. — E prova esse vinho branco cá da nossa lavra, louvando Deus que amadurece tal uva. E o almoço foi muito alegre, muito íntimo, muito conversado, sobre as obras de Jacinto em Tormes, e a sua creche que entusiasmava a tia Vicência, e as esperanças da vindima, e a minha prima Joaninha, que tinha o papá doente, e o péssimo estado dos caminhos. Mas o enternecimento maior foi quando, ao servir o café, o criado pôs ao lado de Jacinto um pires com um pau de canela, o seu estranho e costumado pau de canela. Não esquecera a tia Vicência! Ali tinha o seu pauzinho de canela! — Queria que ele, em Guiães, continuasse os seus hábitos como em Tormes… E aquele pau de canela foi o símbolo de adopção do meu Príncipe como novo sobrinho da tia Vicência. Ela em breve recolheu à cozinha, aos preparativos do banquete. Nós fumámos um preguiçoso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietário, mostrei ao meu Príncipe a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade, sem lhe perdoar um campo, um regueiro, um pé de vinha. Só quando a sua face se começou a opar e a empalidecer pela saciedade, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um vago — «muito bonito! bela terra!» — é que voltei os passos para casa, contornando ainda numa volta larga para lhe mostrar o lagar, uma plantação de aspargos, e o sítio onde existira a ruína de um velho castro romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma rês, para a livraria do meu bom tio Afonso, para lhe mostrar as preciosidades, uma magnífica crónica de D. João I por Fernão Lopes, a primeira edição do «Imperador Clarimundo», uma «Henríada», com a assinatura de Voltaire, forais de el-rei D. Manuel, e outras maravilhas. Ele respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o arrastei à adega, para que ele admirasse a famosa pipa, que tinha, em relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram quatro horas, o meu Príncipetinha o ar esgazeado e lívido. Cravando nele os olhos ferozes, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei «que agora íamos ver a tulha». Mas então, com a mão nos rins, murmurou, humildemente, num murmúrio de criancinha: — Não se me dava de me sentar um bocadinho. Então tive piedade, abri as garras, deixei que ele se arrastasse atrás de mim, para o seu quarto, onde descalçou logo as botas, se atirou para um fresco canapé forrado de fresca ganga, murmurando, num abatimento profundo: — Bela propriedade! Consenti generosamente que ele adormecesse, — e eu mesmo desci a verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no pátio, a velha caleche do D. Teotónio, com as duas éguas ruças. Espreitando da janela descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob o guarda-pó, sem a horrendíssima filha. Corri alegremente ao quarto da tia Vicência, que, ajudada pela Catarina, abrochava atarefada as suas pulseiras ricas de topázios. — Oh!, tia Vicência chegou o D. Teotónio! Felizmente vem sem a filha… Não se demore, os outros não tardam. O Manuel que esteja bem limpo, de gravata bem tesa… Vamos a ver como se passa a festa!

21. mai 202111 min