Enterrados no Jardim
Uma desoladora mistificação do nosso tempo opera-se pelo colapso da responsabilidade, como um processo de recitação em que o ser se expurgasse daquela impiedade no juízo que faz de si mesmo, deixando de reconhecer como a consciência só alcança um limiar sagrado no momento em que cada um de nós admite que o “sermos responsáveis pelos nossos actos até ao fim dos tempos é o verdadeiro juízo final com que temos de nos confrontar” (Steiner). Suponha-se, então, que nos seria possível construir uma excepção que revertesse aquele sentido de responsabilidade absoluta de que falava Dostoievski em Os Irmãos Karamazov (“Todos somos culpados de tudo, culpados por todos diante de todos, eu mais do que os outros.”), construindo-se um efeito de expiação automática de qualquer pecado, em que a culpa não implica já que nos refaçamos dos nossos erros, mas que estes sejam atribuídos ao regime de dissociação geral em curso. Podemos hoje reconhecer como se tem procedido a uma espécie de morbidez da projecção, em que, por um lado, os homens entram num transe, num confessionalismo constante das suas fraquezas, exprimindo aquele desgosto por si mesmos que parte então em busca de causas mais gerais, por outro, tornando-se especialistas em narrar a sua queda, superam assim qualquer transtorno e retiram até um gozo perverso de se verem a actuar como possuídos, como se o próprio céu não passasse de uma ficção infernal, um modo de antecipar a culpa, justificar-se enquanto se encarna os piores defeitos que se poderia reconhecer de fora, sendo este o supremo gozo estético. Seria uma forma de dispor intimamente dessa intuição que guiou Benjamin ao reconhecer como a humanidade, que antigamente, com Homero, foi objecto de contemplação para os deuses olímpicos, veio a tornar-se objecto de contemplação para si própria, e até de forma cada vez mais obsessiva. Ele notava que a alienação de si própria atingiu tal grau que lhe permite viver a sua própria aniquilação como um prazer estético de primeira ordem. De algum modo isto explica como cada um tomou a seu cargo esse movimento de queda para lá de qualquer possibilidade de redenção, em que os seres se deliciam com a possibilidade de enfrentar o juízo final com uma insolência desmedida, com tal desdém pela realidade, que os seus gestos estariam consagrados à produção e reprodução da destruição do mundo, apreciando essa simetria entre a sua devastação íntima e a degradação sucessiva dos planos exteriores, como se o Antropoceno fosse uma projecção de ordem quase libidinal, uma forma de reclamar, pela posse violenta, toda a vida e todo o espaço, revirá-los, cometer contra eles o acto mais infame, realizando assim as nossas fantasias despóticas. E isto porque chegamos a um tal estado de amputação sensível que não conseguimos retirar verdadeiro gozo de uma relação de proximidade e de dependência dos elementos, de tudo aquilo que revelava a nossa fragilidade intrínseca, essa ânsia de ligação. “Compreendo que Nietzsche tenha perdido os sentidos ao ver espancar um cavalo”, diz Steiner. “Trazemos a condenação dentro de nós. Caso contrário, porque teríamos destruído o planeta?” Talvez tenhamos encontrado um meio de vingar-nos da morte, sendo certo que todo o anseio e o terror que esta nos provoca é o resultado de vidas que não sabem cumprir-se. Assim, produz-se esse golpe desesperado que faz do mundo um imenso cadáver de modo a ser-nos mais fácil passar por cima dele, fazer da nossa morte um triunfo. Conseguimos reconhecer esta forma de buscar a própria catarse no lixo, a forma depravada de encontrar esse corpo que corresponde inteiramente aos nossos excessos, à dedicação de todas essas descargas ofensivas, não sendo já possível a ninguém escapar a esta encarnação doentia. Os nossos actos ganhariam assim esse prestígio do horror, como se participassem de uma profecia obscena, traduzindo esse horizonte cor de carne, como as costas de um moribundo… “Demos graças pela nossa violência, disse ele, mesmo que ela seja estéril/ como um fantasma, embora não nos leve a lado nenhum,/ porque estes caminhos não levam a lugar” (Bolaño). O lixo torna-se a condição necessário de toda a lógica de acumulação, e acaba por representar a verdadeira herança e o próprio destino que melhor exprime os anseios de um ser que adoptou nas suas rotinas um princípio de indiferença face aos efeitos que produz, sentindo-se desalojado da própria mente, desalojado daquele sonho que antes nos aproximava, sendo que agora todos os sonhos implicam a degradação dos outros, e até quando tenta transmitir aquilo que deseja, só é capaz de produzir um discurso em que todas as palavras se tornam medonhas. “E viajava de um lugar a outro/ dos sonhos/ qual verme da terra/ arrastando o seu desespero/ comendo-o”… Ninguém estranha assim toda esta raiva, e alguns põem-se a fantasiar com um suicídio planetário, sendo hoje mais fácil imaginar o fim do mundo do que a possibilidade deste mundo prosseguir sem eles, com a frieza com que hoje nos despedimos seja de quem for. A destruição do planeta torna-se assim uma espécie de ilustração do estupor de um ser que faz a escolha de transformar o ultraje dos anos, a consciência do fim. É como se os vivos já não pudessem senão acreditar nessa cumplicidade que liga aqueles que estão obcecados com a sua morte, esses que conspiram para dar a morte à morte. Só que, como nos faz ver Michael Marder, “a morte da morte deteriora fatalmente a vida”, e, assim, “os restos descarregados no vazadouro das nossas loucas aspirações à incorruptilidade, à preservação estática, acabando por interferir nos estreitos parâmetros da vitalidade. Perecemos devido aos nossos anseios de imortalidade perversamente realizados e arrastamos connosco grande parte da biosfera.” A vida que se serve como esse deplorável espectáculo entrou numa decomposição angustiante há algumas décadas, e isto dá-nos uma sensação de ver realizar-se o projecto de um mundo submetido a um contágio em que vemos os mortos continuar entre os vivos. “Custa-lhes mudar os costumes, renunciar ao tabaco, ao prestígio de violadores de mulheres”, lê-se em A invenção de Morel. E se até certa altura a humanidade odiava aqueles seres que se dispunham a ter uma relação virada para o livro, o pensamento e a ética, e que lhe lembravam de que esta não era ainda verdadeiramente humana, se Steiner diz que essa era a verdadeira fonte de todo o ódio contra o judeu, esse que nos vinha exigir uma coisa que sabemos ser justa, mas que nos obrigava a dominar os nossos impulso e desejos, a certa altura, parece que a humanidade quis libertar-se dessas aspirações, e ela mesma realizou-se através de uma imortalidade pútrida, esta lixeira que significa a produção de uma realidade alinhada com o niilismo que por fim nos desobriga de qualquer obrigação moral para com este mundo. Neste episódio, Marder, que acaba de ver publicado entre nós Filosofia no Lixo – Uma Fenomenologia da Devastação, com selo da VS, veio orientar-nos neste confronto com esse monturo crescente de resíduos que sufoca, fende e diminui as regiões habitáveis do planeta, ao mesmo tempo que penetra a própria fibra do ser e exprime materialmente essa fantasia metafísica da economia capitalista que no seu crescimento monstruoso e sem trégua produziu um pesadelo de que não parece haver saída.
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